AMÉRICA LATINA VAI ATRAIR RECURSOS DE US$50 BILHÕES ESTE ANO

A América Latina, apesar da recessão mundial e das incertezas político- econômicas em algumas regiões do continente, continua atraindo um robusto fluxo de investimentos diretos estrangeiros. Segundo o relatório da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), um órgão da ONU sediado em Santiago do Chile, as nações latino-americanas atrairão o equivalente a US$50 bilhões em recursos externos durante o ano de 1993. Um pouco abaixo dos US$61 bilhões observados em 1992, mas ainda assim um
75730 volume muito significativo, disse o secretário-executivo da CEPAL, Gert Rosenthal, ao divulgar, ontem, o documento estatístico. Depois de analisar os dados econômicos de mais de 20 nações latino- americanas, a CEPAL concluiu que o continente crescerá em 93, pelo terceiro ano consecutivo, a uma taxa de 3,6%. O crescimento de 4,1% previsto para o Brasil foi considerado "decisivo" para a média latino- americana ganhar novo impulso. A média inflacionária-- com o Brasil excluído-- ficará em 19% (contra os 22% de 92), e a dívida externa comum continental mostrará, até dezembro, uma expansão de 5%, em relação à do ano passado, alcançando US$438 bilhões. Dos recursos externos captados na América Latina, o México é o país que mais se beneficiou. Os mexicanos receberam em torno de 50% de todo o investimento no continente. Em seguida vem a Argentina com um sexto do total de investimentos externos. No setor de emissão de bônus nos mercados financeiros internacionais, os latino-americanos captaram US$10,7 bilhões no primeiro semestre. Mexicanos novamente à frente com 50%, Brasil em segundo com 30%, seguido da Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai. A liberação econômica em muitos países da América Latina vem despertando muito interesse dos investidores estrangeiros. No ano passado eles canalizaram US$57 bilhões para a região-- em comparação aos US$40 bilhões aplicados em 1991. Apesar desse acréscimo, o total poderia ser bem maior. Isso não aconteceu porque os investidores "ainda estão preocupados com riscos políticos na região"-- diz um trecho do relatório anual da International Finance Corporation (IFC), subsidiária do Banco Mundial (BIRD) que atua no setor privado. O documento diz que a economia da América Latina teve uma expansão de 3,7% em 1992, e a inflação baixou para uma média de aproximadamente 20% ao ano. O Brasil, porém, surge no informe como a ovelha negra da região. O PIB brasileiro caiu 1,5% e a inflação passou de 1.100% ao ano. Apesar disso, o país conseguiu receber uma injeção de US$10 bilhões em investimentos externos. Esse fato, por si só, justificaria a confiança dos aplicadores no país-- apesar dos problemas que o Brasil enfrenta. O Brasil está na contramão do sucesso econômico da América Latina: num relatório de 221 páginas sobre a situação econômica mundial, a Conferência para Comércio e Desenvolvimento da ONU (UNCTAD) cita o Brasil e o Peru como exceções à regra em praticamente todas as análises positivas sobre o desempenho do continente. O Brasil-- que, sozinho, responde por um terço do PIB da região-- é praticamente o único país no continente que, segundo a ONU ficou emperrado na mesma situação de crise da década de 80. O maior problema do país, diz o documento, é interno: o déficit fiscal. Destacando-se sempre por estar do lado errado, o Brasil é ainda citado como o único no continente a ter inflação de dois dígitos, sendo que até mesmo a Nicarágua acabou com a hiperinflação em 1992. Somente as economias brasileira e peruana "não mostraram nenhum sinal de recuperação da recessão de 1988-89 e sua estagnação está se tornando crônica", diz o informe. No período 1990-92, o Brasil e o Peru-- com retração econômica de 1,5% e 2,5%, repectivamente-- contribuíram ainda para baixar a média de crescimento da América Latina. Caso estes dois países fossem excluídos, o índice de expansão da atividade econômica na região teria subido de 2,3% para 5%. Se o Brasil vai mal, seus vizinhos não devem se iludir com tantas comemorações. Pela primeira vez, a ONU alerta para "sérios riscos e fraquezas" no sucesso das novas estrelas da América, como Argentina, Chile e Venezuela: há previsões de queda brusca no fluxo de capitais externos para o continente, e, se isso ocorrer, "todos os ganhos da região podem ser perdidos", diz K.K.S. Dadzie, secretário-geral da UNCTAD. Isso porque, segundo a ONU, boa parte dos "sucessos" macroeconômicos dos latino- americanos só ocorreu por causa da súbita entrada de capital externo: isso ajudou a baixar a inflação, a cobrir déficits na balança de pagamento e a diminuir o déficit orçamentário e controlar o déficit fiscal. Mas os riscos por trás desses ganhos podem ser grandes. Ao contrário dos asiáticos, o crescimento dos bem-sucedidos latino-americanos está mais alimentado por consumo do que por investimentos, que representam metade do volume de investimentos na Ásia. Boa parte do capital que entrou foi repatriação de fuga de capital ou dinheiro para alimentar a onda de privatizações (e os dois um dia atingirão o limite). O continente está também perdendo a competitividade e, consequentemente, diminuindo exportações, a ponto de a ONU estar sugerindo "ativo apoio do governo na proteção dos produtores domésticos" (O ESP) (O Globo).