Mais da metade das nove milhões de famílias indigentes do país estão concentradas nos pequenos municípios, com menos de 50 mil habitantes, e não nas grandes cidades. Esta é uma das principais constatações do trabalho "O Mapa da Fome III - Indicadores sobre a Indigência no Brasil", que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) concluiu com base em dados brutos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1990, do IBGE. O estudo revela ainda que a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com 445 mil famílias miseráveis, tem a maior concentração de pobreza das áreas metropolitanas do país. As regiões metropolitanas de Fortaleza-CE (25,5%) e Recife-PE (25,2%) são as que exibem os mais elevados índices de indigência familiar. Do lado oposto estão as duas regiões metropolitanas da Região Sul-- Curitiba-PR (8,7%) e Porto Alegre-RS (9,6%) e a Região Metropolitana de São Paulo, que tem apenas 7% ou 329 mil famílias vivendo na miséria, o menor índice entre as nove regiões metropolitanas do país. Em números absolutos, São Paulo só perde para a Região Metropolitana do Rio, que com suas 445 mil famílias indigentes tornou-se o maior bolsão de miséria do Brasil. De acordo com os datos tabulados sob a coordenação de Anna Maria Peliano, do IPEA, 2,5 milhões de famílias indigentes, o correspondente a 28% do total de pessoas que vivem com renda inferior ao valor da cesta básica no país, moram em cidades com até 20 mil habitantes. Outras 2,4 milhões de famílias miseráveis (27 do total de indigentes do Brasil) estão em cidades entre 20 mil e 50 mil habitantes. A partir daí, o índice de pobreza absoluta não varia muito de acordo com o tamanho do município: 14% nas cidades de 50 mil a 100 mil habitantes; 16% nas de 100 mil a 500 mil habitantes; e 14% nas com mais de 500 mil habitantes. O número de famílias indigentes por município também obedece essa distribuição, sendo mais elevada nas pequenas cidades. Dessa forma, as cidades com até 100 mil habitantes são as que possuem número de miseráveis superior à média nacional, de 24,4% (9,1 milhões de famílias miseráveis para um total de 37,5 milhões). Acima da média estão os municípios com até 20 mil habitantes (37%); de 20 mil a 50 mil habitantes (38%); e de 50 mil a 100 mil habitantes (29%). A ocorrência de famílias indigentes cai para 19% nas cidades de 100 mil a 500 mil moradores e para 11% nas com mais de 500 mil. Outra constatação da pesquisa é que no caso dos municípios das capitais onde existe região metropolitana, o índice é sempre mais baixo para o município sede. Dessa forma, a cidade do Rio de Janeiro-RJ tem 10,2% de famílias indigentes (197 mil), índice inferior ao do próprio Distrito Federal (11,8%), que detém o mais alto padrão de vida do país. Também chamam a atenção os baixos índices de indigência familiar nas capitais da região Norte, em particular Manaus-AM (7,6%) e Boa Vista-RR (4,9%), bem próximos do encontrado na cidade de São Paulo-SP (6,3%). Desconsiderados os municípios das regiões metropolitanas e das capitais, as maiores concentrações de miséria estão na região Nordeste. Da relação de 50 municípios com maior número de famílias indigentes, 30 são daquela região, com índices que variam de 34,5% (Itabuna-BA) a 67,9% (Itapipoca-CE), cidade campeã nacional de pobreza (JB).