SAQUES ORGANIZADOS NO NORDESTE

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), Francisco Urbano, reafirmou ontem que os sindicatos rurais devem comandar e organizar os saques feitos por flagelados no Nordeste. "Não quero saber se o saque é ou não legal. Estou defendendo esse princípio nas minhas andanças pelo Nordeste. Se o sertanejo não tem o que comer, o jeito é saquear mesmo. Estou orientando os sindicatos rurais para que promovam saques organizados, somente com os famintos, e só tomando alimentos de quem realmente tem demais", disse Urbano. Ele afirmou não ligar para os efeitos legais de sua pregação: "O importante é salvar as milhares de famílias que estão morrendo de fome no Nordeste devido à seca. O governo federal já avisou que só tem dinheiro para sustentar as frentes de trabalho até dezembro. E o que vai ocorrer depois? Será que as autoridades querem milhares de indigentes, famintos, perambulando pelas capitais do Nordeste?", pergunta Urbano. O presidente da CONTAG-- que segundo ele tem 3.200 sindicatos rurais-- acha que o auxílio do governo federal e as ações dos governos estaduais estão longe de suprir as necessidades alimentares dos 12 milhões de nordestinos atingidos pela seca. A CONTAG considera que a única forma de evitar saques é a criação, pelo governo, de um fundo gerenciado por organizações não-governamentais e sindicatos de trabalhadores rurais, para impedir que os recursos enviados às regiões atingidas não sejam usados com fins eleitoreiros. Foi o que disse ontem, em Brasília (DF), o assessor jurídico da entidade, Ivaneck Alves. A decisão da CONTAG de organizar saques a feiras e armazéns do Nordeste ganhou ontem o apoio de sindicalistas rurais como o presidente da Federação de Pernambuco, Manoel José dos Santos. No mesmo tom de Urbano, ele afirmou que os lavradores em estado de penúria devem pedir alimentos e, se não forem atendidos, "tomá-los a pulso, mas só de gente que tem de sobra". O representante da Federação dos Trabalhadores na Comissão Estadual de Combate à Seca da Bahia, Manoel Messias Dias, informou que a situação é tão dramática que não há como impedir novos saques. Na Bahia, 2,5 milhões dos quatro milhões de trabalhadores rurais estão passando fome. "A nossa intenção é organizar os saques para não acontecer um massacre por causa da fome", disse Messias. Este ano já foram registrados 23 saques ou tentativas de saque em Pernambuco, oito saques na Bahia e assaltos a oito caminhões com alimentos no Ceará. Na Paraíba, os saques também já começaram. Está previsto para o dia 20 o início da distribuição de seis milhões de cestas básicas para 1,5 milhão de famílias alistadas no Programa de Frentes Produtivas de Trabalho nos Estados do Nordeste, durante quatro meses. Do total de 150 mil toneladas, adquiridas pela CONAB por CR$1,767 bilhão, em valores de agosto, cerca de 33 mil toneladas serão destinadas ao Ceará. O Programa de Distribuição Emergencial de Alimentos da CONAB vai doar à SUDENE 60 mil toneladas de arroz, 24 mil toneladas de feijão, 48 toneladas de milho e 18 mil toneladas de farinha de trigo. O frete do produto deverá ser pago pelos governo estaduais (O Globo) (JB).