O desejo antigo dos movimentos populares de fundar uma central única está próximo de se concretizar. Entre 28 e 31 de outubro será oficialmente criada em Belo Horizonte (MG) a primeira Central dos Movimentos Populares (CMP), reunindo cerca de 17 mil militantes. Desde início dos anos 80, a atuação dispersa era considerada como obstáculo que atrelava os movimentos às reivindicações imediatistas, impedindo a formulação de projetos de longo prazo. O coordenador José Albino de Melo acredita que a criação da CMP permitirá que os movimentos populares exerçam o direito à cidadania sem qualquer vinculação a governos, partidos políticos ou religiões. A 1a. Plenária da Pró-Central de Movimentos Populares ocorreu em Brasília (DF), no início de 1990, com a participação de 500 delegados representando cinco mil militantes. No ano seguinte, a 2a. Plenária, em São Bernardo do Campo (SP), reuniu cerca de 250 delegados. Para o primeiro congresso foram realizadas assembléias em mais de 160 municípios. A Pró-Central tem coordenação em 18 estados e comissões provisórias em outros cinco. Participam da central movimentos de mulheres, moradia, saúde, negros, homossexuais, direitos humanos, hansenianos, deficientes físicos, meninos de rua, trabalhadores rurais, favelados, ecológicos e índios. Os principais temas discutidos este ano foram a violência, a campanha contra a fome e a revisão constitucional. Se existe unanimidade em torno da criação da central, também já apareceram divergências. A principal é a proibição de participação de pastorais e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ambas vinculadas à Igreja Católica. "A autonomia é um assunto que causa muitas discussões", afirma Albino. Segundo ele, ainda que as CEBs e as pastorais tenham origem popular, a vinculação religiosa impede que sejam autônomas. Não menos polêmica é a ligação com o PT. Afinal, a semente da central é a mesma do PT e da CUT. Embora a pesquisa feita na 2a. Plenária ter constatado que 63% dos delegados não eram filiados a partidos, cerca de 30% dos coordenadores são filiados ao PT-- inclusive Albino. Isso não quer dizer que a central seja uma corrente do partido. Vamos ter autonomia e independência", assegura Albino. Ele garante que na central há filiados de vários partidos e facções de esquerda: PSB, PPS, PSTU, Causa Operária, Partido Revolucionário Operário, PSDB e PC do B (JB).