CIENTISTAS DENUNCIAM FARSA NA SECA

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), dois dos mais credenciados centros de estudos do país, provaram, cientificamente, que o Polígono das Secas, na Região Nordeste, não tem a extensão de 900 mil quilômetros quadrados apregoada pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Os cientistas afirmam que políticos e autoridades conseguiram, em apenas duas décadas (de 1930 a 1950), ampliar em mais de três vezes a área atingida pelas secas, na busca de subsídios governamentais para obras gigantescas, em sua maioria inúteis e falhas. A região mais atingida pelas secas-- o Polígono-- não passa, de acordo com levantamentos dos pesquisadores, de 320 mil quilômetros quadrados. Ainda assim, essa área não é carente de recursos hídricos, segundo o diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP, Aldo da Cunha Rebouças. A média pluviométrica anual da região, considerada crítica pela SUDENE, está entre 700 milímetros e 400 milímetros, o que supera os índices da Europa Ocidental, e chega a ser até sete vezes mais elevada que a média em Israel e na Califórnia (EUA), duas potências agrícolas. "O Polígono foi evoluindo pelas injuções políticas a cada seca", explica Rebouças. "O problema é político e a seca já poderia ter sido sanada se houvesse vontade", diz Fausto Carlos de Almeida, do INPE. Os cientistas afirmam que a região pode se tornar produtiva em pouco tempo e sem grandes obras. A seca nordestina consumiu, nos últimos 33 anos, o equivalente a US$11 bilhões. Foi o que o governo federal investiu na região desde a criação da SUDENE. Desse total, cerca de US$7 bilhões foram consumidos na infra- estrutura de desenvolvimento, por meio de fundos subsidiados, como o FINOR. O restante foi destinado a ações de emergência, como as frentes de trabalho. Só nos últimos cinco anos, conforme levantamento da SUDENE, foram aplicados US$2,5 bilhões nas frentes de emergência. Para o deputado federal José Genoíno (PT-SP), o volume de recursos liberados não é exagerado. O problema está na forma de liberação, que favorece o clientelismo político, e na falta de critérios nos gastos, que permite o desperdício e a drenagem dos recursos para as oligarquias nordestinas. "Ou o governo acaba de vez com a intermediação, ou nunca vai solucionar o quadro de miséria do Nordeste", diz. Segundo diagnóstico dos técnicos da SUDENE, porém, os investimentos em infra-estrutura modificaram o perfil econômico do Nordeste, propiciando a criação de uma agroindústria forte. Desde a década de 60, o PIB da região cresceu 4,6 vezes e tem registrado taxas de expansão sempre acima da média nacional (O ESP).