O ESTOQUE DE SOLIDARIEDADE NÃO ACABOU

Não foi à toa que a Semana da Arte Contra a Miséria e Pela Vida foi marcada para começar, no Rio de Janeiro (capital), no dia 7 de Setembro. A pátria livre da fome é o sonho do cidadão Herbert de Souza, o Betinho. Depois de cinco meses do lançamento da campanha contra a fome, o sociólogo e secretário-executivo do IBASE admite ter ficado surpreso com a reação da sociedade. "O movimento revelou que o estoque de solidariedade das pessoas não acabou", afirma. "Hoje, mesmo as pessoas que não se engajaram na campanha, discutem o assunto. Agora, todo mundo sabe que existem 32 milhões de famintos no Brasil". Mas, o discurso do governo, garantindo prioridade no combate à fome e à miséria, não passou para a prática, lamenta. Ele critica a política econômica do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso-- "pensada para 20% da população"-- e diz que o presidente Itamar Franco tem boa vontade, mas está inibido. "O Estado não é o presidente. É todo um mecanismo de interesses, inércias, compromissos explícitos e implícitos". Para ele, agora é hora de partir para a segunda etapa da campanha: "Se o primeiro gesto foi organizar, mobilizar, gerar consciência, o segundo tem que ser o enfrentamento da miséria via geração de empregos". A Semana da Arte Contra a Miséria e Pela Vida será aberta hoje com uma vigília ecumênica no Parque Lage, no Jardim Botânico (zona sul), com 100 músicos, atores e artistas plásticos fazendo jejum das 10h às 22h. O espetáculo mais grandioso da campanha será o "Cidadão!", no dia 14, no Teatro Municipal (centro). Cerca de 300 artistas apresentarão trechos de peças de teatro, interligadas com textos dos diretores Domingos de Oliveira e Aderbal Freire Filho. O ingresso de "Cidadão!" é a assinatura de um Contrato de Cidadão pelo espectador, que se compromete a doar uma cesta básica-- ou meia ou um quarto, dependendo do lugar na platéia-- por mês, durante um ano. Caso os 2.500 lugares do teatro sejam ocupados, a "renda" do espetáculo será suficiente para alimentar 800 famílias durante um ano. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção São Paulo, distribuiu ontem aos dirigentes de suas 216 subseções em todo o estado a determinação para que passem a funcionar como comitês da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. O presidente da OAB-SP, João Roberto Egydio Piza Fontes, afirma que a iniciativa permitirá ampliar rapidamente os mecanismos de coleta e distribuição de alimentos para as parcelas da população mergulhadas na miséria. A entidade não fará diretamente a coleta, não os estocará nem pretende distribuí-los. Seus escritórios estarão mobilizados para funcionar como banco de dados capazes de aproximar doadores de alimentos e comunidades carentes (JB) (FSP).