A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) está intermediando contratos para o trabalho de índios nas destilarias e carvoarias de Mato Grosso do Sul. A prática é ilegal (fere o Estatuto do Índio), mas comum na região, segundo funcionários da instituição que já atuaram na área. A justificativa é que os índios não têm como se manter nas reservas e não há outra opção a não ser os trabalhos temporários. Há um "gato" (agenciador) que contrata os grupos nas reservas e o pagamento é dividido entre os índios, o assinante do contrato (normalmente um funcionário da FUNAI que deve repassar o dinheiro à comunidade) e o agenciador. O aliciamento de índios foi denunciado num relatório preliminar da Comissão Permanente de Investigação e Fiscalização das Comunidades de Trabalho, que investiga denúncias de trabalho escravo. De acordo com o relatório, a comissão comprovou na Usina RS, em Sidrolândia (MS), a contratação de 115 índios, por meio da FUNAI. Convivendo com outros trabalhadores vindos do Nordeste, principalmente do Rio Grande do Norte, os índios, segundo o relatório, fazem a própria comida e ocupam alojamento separados, em condições inferiores às dos outros trabalhadores. Responsável por uma comunidade de 30 mil índios que vivem em 22 pequenas reservas, o chefe do posto indígena da FUNAI em Amambaí (MS), José Antônio Martins Flores, reconhece que o trabalho nas carvoarias e destilarias é a única alternativa de subsistência. Com reservas cujas áreas não chegam a atingir 700 metros quadrados por índio, os guaranis, caiovás e nhandevás costumam se embriagar ou até mesmo se matar. Segundo Flores, na semana passada ocorreu o 23o. suicídio do ano na reserva de Dourados, onde vivem os guaranis. Nos últimos cinco anos, 123 índios se mataram na reserva (O ESP).