O Brasil tem hoje 32 milhões de indigentes. Essa massa de famintos se formou nos últimos 15 anos e é produto de anos seguidos de recessão e de falta de políticas públicas. Estas mesmas causas vêm provocando o aumento contínuo da violência. Esta, em síntese, é a análise que o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), faz do país. Ele é o idealizador e principal animador do movimento inédito, sem vínculos com o governo nem com partidos, e que está dando certo, a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Betinho defendeu, no último dia dois, uma mudança radical na economia para erradicar a fome. "Estamos propondo que o combate à miséria seja a principal prioridade da economia, mais do que o combate à inflação", afirmou. Betinho planeja três fases para o movimento: a atual, de combate à fome, em seguida um programa emergencial de emprego e, em 1994, o momento de "pensar o Brasil". Cinco meses após a criação do primeiro comitê na desconhecida Barra do Piraí (RJ), a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida-- criada por Betinho para arrecadar alimentos e conscientizar a sociedade para o problema da miséria-- conta hoje com cerca de três mil comitês. É uma pretenciosa rede nacional de assistencialismo, inédita pela total informalidade: não há registro oficial de suas ações ou qualquer estrutura organizacional. A falta de organização, que impossibilita qualquer estatística exata, é vista pelos comitês como a fórmula da "onda" em que se transformou a campanha. Cerca de 80 bairros do Rio de Janeiro (capital) já têm comitês, em sua maioria na zona sul. A campanha contaminou Minas Gerais, onde está a maior parte dos dois mil comitês do Banco do Brasil, uma das 30 empresas estatais envolvidas. Apesar de São Paulo não estar tão engajado quanto Rio e Minas, o comitê de Jundiaí (SP) quer bater o recorde nacional de coleta de comida no próximo dia 10: 200 toneladas, suficientes para alimentar 10 mil famílias em um mês. O Comitê Rio, o mais bem estruturado do país-- com sede, quatro funcionários do BB e dois telefones-- calcula que o estado tenha 200 comitês, a mesma previsão de Minas. A falta de vinculação ao governo ou a partidos políticos talvez explique o fato de, segundo Betinho, não ter havido nenhuma denúncia de fraude em cinco meses. O antropólogo Rubem Fernandes, um dos coordenadores do comitê inter-religioso do Rio, acha que "o risco da centralização é muito maior do que o da descentralização". Segundo ele, "não pode haver uma pirâmede e o Betinho não é candidato a faraó". A maioria dos comitês tem como bandeira a solidariedade e, como carro- chefe, a coleta de alimentos. Calcula-se que já foram arrecadadas 200 toneladas em quatro meses no Rio, longe, porém, das duas mil toneladas mensais que o comitê calcula serem necessárias para atender às 180 mil famílias de indigentes na cidade. Não há regras de atuação para os comitês e cada um decide o que fazer. Banco Central, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e PETROBRÁS adotaram creches de meninos de rua. A PETROBRÁS cedeu à campanha 63 poços perfurados no sertão baiano, onde, em vez de petróleo, acharam água doce, e 270 terrenos para hortas comunitárias. Fabricantes de concreto de Minas Gerais estão doando desperdícios à fábrica de blocos de uma favela. Virou moda funcionário doar tíquete-refeição, principalmente em estatal. É mínima a participação de empresários na campanha de combate à fome em São Paulo, que concentra cerca da metade da produção industrial no país. A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), visitada no início do movimento por Betinho, não se engajou na campanha. Há uma grande simpatia por parte dos empresários, mas em participação
75591 direta não sei como está, disse o empresário Sérgio Mindlin, do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), um dos coordenadores da campanha no estado. Mindlin está na campanha através do PNBE, mas a sua empresa, a Metal Leve, não faz parte de nenhum comitê. O maior evento na capital paulista até agora foi o show no Memorial da América Latina no dia 29 de agosto, que reuniu grandes nomes da música popular brasileira. O show resultou na coleta de nove toneladas de alimentos. A origem da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida é a mesma do movimento que pressionou o Congresso Nacional a aprovar o Impeachment" do ex-presidente Fernando Collor de Mello: as dezenas de entidades que faziam parte do Movimento pela Ética na Política, que organizou as passeatas e manifestações contra Collor no ano passado. Aprovado o Impeachment" de Collor, as entidades que integravam o Movimento se reuniram em dezembro sem saber o que fazer para não deixar que a mobilização popular alcançada se dispersasse. Elas decidiram então iniciar um movimento contra a fome e a miséria, partindo do princípio de que "democracia e miséria são incompatíveis". Responsável em grande parte pela repercussão da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, o comitê dos artistas, um dos maiores do país, promove a partir do dia sete a "Semana de Arte Contra a Fome". São eventos em todas as áreas da cultura, envolvendo cerca de 500 artistas, em um acontecimento que Betinho compara à Semana da Arte Moderna de 1922, que marcou o rompimento com o academicismo na arte brasileira. "Essa semana vai representar o reencontro da cultura com o desafio da erradicação da miséria", afirma Betinho (FSP).