O Exército brasileiro vai propor à Rússia a troca de grãos por equipamentos bélicos. Está prevista para o dia oito a viagem do ministro do Exército, Zenildo Zoroastro de Lucena, a Moscou, onde começam as negociações internacionais para o reaparelhamento da Força. Em troca de mísseis de curto alcance, tanques e até máscaras contra-gás, acumulados no período da Guerra Fria, o Exército oferecerá parte da produção de alimentos estocada pelo Ministério da Agricultura. Parte do equipamento será destinado a treinamento militar na Amazônia. O projeto, que poderá atingir US$4 bilhões de dólares, não está restrito à maior das ex- repúblicas soviéticas. Estão previstas viagens de autoridades para a China e outros países do Leste, onde também há falta de cereais e sobra material de guerra. Conforme integrantes da cúpula do Exército, a Rússia e várias repúblicas do Leste estão interessadas em repassar ao Brasil seu excedente bélico, por um décimo do preço de mercado. Segundo oficiais, a idéia de trocar alimento por armamento interessa a esses países-- quase todos acossados pela recessão econômica desde a queda do Muro de Berlim. Rompendo a tradição de aliança com os EUA contra os antigos países comunistas, agora o Brasil procura a Rússia com o objetivo de reforçar a vigilância interna contra supostas ameaças de controle da Amazônia pelo governo norte-americano. A cúpula do Exército está convencida de que os EUA tentarão controlar a Amazônia-- sozinhos ou em aliança com outros países da Europa-- se ficar demonstrado ao mundo que o governo brasileiro é incapaz de resguardar a região. Controlada pelos EUA, a ONU (Organização das Nações Unidas), na avaliação dos militares brasileiros, teria papel fundamental nesta suposta estratégia. Oficiais do Exército acham que os conflitos permanentes na Amazônia, agravados agora com a chacina dos yanomamis, fornecem elementos para que a ONU seja pressionada a adotar medidas contra o Brasil. Para que a negociação com a Rússia não tenha caráter estritamente militar, o acordo bilateral prevê também a importação pelo Brasil de fertilizantes. A idéia do Exército de usar os estoques reguladores da Agricultura irá gerar polêmica. O governo já anunciou que pretende distribuir 150 mil toneladas de alimentos no programa de combate à fome. Militares de alto escalão sustentam que o projeto não prejudicará o atendimento à população carente. "O que temos dá para as duas coisas", afirmam. Os oficiais alegam, ainda, que a operação significará economia de divisas para o Brasil. A palavra final sobre o assunto, no entanto, será dada pelo presidente Itamar Franco, informaram os oficiais (JC) (O ESP) (FSP).