Na mais violenta chacina já registrada no Rio de Janeiro, 21 moradores-- 13 homens, seis mulheres e dois adolescentes-- foram assassinados na madrugada de ontem quando um grupo de extermínio de cerca de 50 homens fortemente armados e usando capuzes, alguns com roupas semelhantes às da Polícia Militar, invadiram a favela de Vigário Geral, na zona norte da cidade, levando o terror aos cerca de 30 mil moradores durante quase duas horas. O vice-governador e secretário de Justiça e Polícia Civil do Rio, Nilo Batista, acredita que a matança foi uma vingança à morte de quatro policiais militares, fuzilados na mesma favela, menos de 24 horas antes, numa emboscada armada pelos traficantes da área. Entre os mortos havia oito integrantes de uma família de evangélicos, assassinados na própria casa. Os outros corpos estavam em um bar e espalhados pelos becos da favela. A maioria era de trabalhadores sem ficha na polícia. Revoltados, moradores interditaram o tráfego de carros e de trens no bairro e impediram a entrada da polícia. Só 13 horas depois do crime, com a chegada do vice-governador, os bombeiros conseguiram recolher os corpos. Em nota oficial e pronunciamento na TV, à noite, o governador Leonel Brizola (PDT) afirmou que o episódio está ligado a "uma inadimissível operação de vingança" a qual, se confirmada, exigirá um choque disciplinar na PM. Os PMs conhecidos como "Cabo César" e os soldados Stefani e "Cláudio Russo", do Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO) de Jardim América, próximo à favela de Vigário Geral, são os primeiros suspeitos da chacina. Os moradores apresentaram a polícia uma lista de 10 suspeitos. Cinco testemunhas vão fazer o retrato falado. Os criminosos responsáveis pelo massacre de ontem prometeram matar 10 favelados para cada um dos quatro PMs assassinados na véspera, segundo testemunhas que pediram para não serem identificadas. O presidente Itamar Franco determinou ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, que acompanhe de perto as apurações e exigiu rigor nas investigações da chacina. O porta-voz da Presidência, Francisco Baker, descartou a possibilidade de o governo determinar uma intervenção das Forças Armadas na PM. Segundo ele, o presidente está "atento e tem se mantido informado sobre o assunto". O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) do Ministério da Justiça, deve reunir-se extraordinariamente ainda esta semana para analisar a chacina. O secretário de Direitos da Cidadania e Justiça do Ministério, Pedro Demo, considera "complicada" a situação da PM do Rio, mas não acredita que seja caso de intervenção federal. Deputados de vários partidos ocuparam ontem a sessão da Câmara Federal para repudiar a chacina, e alguns deles pediram a intervenção federal no comando da PM. Os pedidos de intervenção foram encabeçados pelos deputados fluminenses Sérgio Arouca (PPS) e Amaral Netto (PPR), que acusaram o governador Leonel Brizola de omissão. Os parlamentares foram unânimes em denunciar que existe no Rio de Janeiro uma situação de total falta de controle do estado sobre a violência praticada pela polícia e por organizações criminosas. Arouca e Amaral Netto responsabilizaram o prefeito César Maia (PMDB) e o governador Brizola pelo descontrole que provocaram chacinas como a de ontem. Em carta dirigida ao governador Leonel Brizola, a Americas Watch, organização de defesa dos direitos humanos, expressa seu "choque" pela matança na favela de Vigário Geral, aponta "a necessidade urgente de empreender sérias reformas na Polícia Militar do Estado do Rio e, especialmente, estabelecer um sistema em que os criminosos e violadores dos direitos humanos sejam identificados e afastados o mais rápido possível". A entidade afirma que fatos como esse e o assassinato de oito crianças na Candelária "são exemplos da epidemia de violência cometida por policiais de folga que está devastando o Rio de Janeiro". A Americas Watch sugere a criação de uma única divisão de assuntos internos da PM para investigar os crimes de policiais "que estejam ou não de folga". O cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugenio Sales, disse que o massacre é "mais um duro golpe na dignidade do Rio". O porta-voz da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), padre Antoninho Valentim, afirmou que "o assassinato a sangue frio mostra que a avalanche de violência neste país chegou ao nível máximo e parece incontrolável". O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Roberto Batocchio, cobrou dos governos federal e estadual punição exemplar para os culpados. O presidente da FAFERJ (Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro), Pedro Mendonça, afirmou que "o responsável por esta situação de tensão em que vive a população favelada do Rio é o poder público, tanto a nível estadual, quanto municipal e federal. Vamos denunciar o que aconteceu a entidades internacionais de direitos humanos. Não acreditamos nas autoridades brasileiras, estas não fazem nada". Em artigo publicado no jornal "O Globo", o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e articulador nacional da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, diz que a chacina "(...) Foi a gota dágua. Tudo agora transbordou e não existe mais tempo e condições para procedimentos habituais, burocráticos, tradicionais. Frente à absoluta anormalidade é crucial atuar com absoluta eficiência para proteger a população do crime, instalado de forma generalizada numa corporação que perdeu o rumo, o sentido, a consciência e a dignidade. Estamos diante do dilema. Ou o Estado prende sua polícia ou ela acabará com o Estado e a sociedade, e estaremos mergulhados na barbárie sem retorno". Segundo Betinho, "Por muito menos a polícia de um estado do Norte foi dissolvida e seus integrantes processados. O governador Brizola não tem outro caminho pela frente senão o de apelar para a cooperação imediata e urgente das Forças Armadas para dissolver a Polícia Militar e começar imediatamente sua reorganização em bases novas, através de concurso público que dedique, inclusive, pelo menos 50% de suas vagas às mulheres. Com esse gesto, em poucos meses poderemos voltar a respirar aliviados, respeitando a polícia e temendo somente e tão somente a violência do crime. Que esse sangue derramado de forma tão brutal sirva para mudar radicalmente uma realidade que nos mata a todos a cada dia. Com a palavra, o governador" (JB) (O Globo) (FSP) (O ESP).