O Exército e a Polícia Federal concluíram que a chacina dos índios yanomamis ocorreu na Venezuela. No último fim-de-semana, dois oficiais militares e agentes federais visitaram a maloca Haximu, local do massacre, e utilizaram aparelhos para determinar as coordenadas geográficas da região. Segundo levantamento técnico preparado pelo Comando de Operações Táticas (COT), tropa de elite da PF, as malocas Haximu estão localizadas a 15 km da fronteira brasileira, em território venezuelano. Os tapiris, acampamentos improvisados onde os índios foram atacados por garimpeiros, também estariam na Venezuela, distantes cerca de 11 km da fronteira com o Brasil. As 10 fogueiras encontradas na semana passada ficam entre Haximu e os tapiris. Com margem de erro próxima de zero, o laudo do COT mostra que na área, há cerca de dois meses, 13 yanomamis foram abatidos a tiros de espingarda, disparados por garimpeiros. Dois dias antes, cinco índios tinham sido mortos. Segundo o laudo da PF, este foi o único massacre de yanomamis nos últimos tempos. A conclusão sobre o número de mortos foi baseada em depoimentos de sobreviventes e do antropólogo Bruce Albert, da Comissão de Defesa da Reserva Yanomami, que semana passada localizou índios feridos a bala fugitivos de Haximu na aldeia de Makos, na região de Toototobi, no Estado do Amazonas. A primeira consequência da divulgação do laudo da PF foi a retirada imediata das equipes de agentes federais da região de Haximu, pois estavam operando em território venezuelano. As investigações vão continuar em território brasileiro, em busca de provas para esclarecer a chacina, atribuída a garimpeiros brasileiros. O presidente da FUNAI, Cláudio Romero, não quis se pronunciar oficialmente sobre a informação de que a maloca Haximu fica na Venezuela. Pelo acordo de fronteira entre os dois países, toda a região do rio Orenoco pertence à Venezuela. A aldeia onde ocorreu o assassinato é banhada pelo rio Haximu, afluente do Orenoco. Portanto, venezuelano. Segundo o relatório do COT, o massacre aconteceu em duas etapas. Na primeira, garimpeiros invadiram Haximu, mataram cinco yanomamis homens e feriram um. Os índios, em represália, mataram um garimpeiro e feriram outro. Os garimpeiros fizeram outra incursão a Haximu e mataram 13 mulheres e crianças. Os corpos dos 18 índios, segundo investigações do delegado Raimundo Cotrim, que preside o inquérito, foram enterrados no acampamento dos garimpeiros, que também fica na Venezuela, a 11 km da fronteira com o Brasil. Coutrim chegou às conclusões sobre o local do massacre e o número de mortos através de depoimentos de sobreviventes-- foram localizados 67 yanomamis da maloca Haximu, que tinha uma população de 85 índios-- e de novas ossadas encontradas no acampamento dos garimpeiros. O procurador-geral da Venezuela, Ramón Escovar Salom, disse ontem que o que ocorreu com os índios "é antes de tudo um problema de direitos humanos" e defendeu que os dois países se unam para apurar o crime. Disse que não importa apenas definir onde foi a chacina. "O perigo é querer ficar passando a responsabilidade de um país para o outro. Isso não interessa a ninguém, pois os índios são cidadãos. O Brasil e a Venezuela têm de atuar conjuntamente", afirmou. O embaixador da Venezuela no Brasil, Sebastián Alegrett, informou que o governo de seu país abrirá inquérito para apurar a chacina. O diretor de Fronteiras da Venezuela, almirante José Velasco Collazo, disse que a versão sobre o massacre dos yanomamis em território venezuelano tem como objetivo criar um conflito diplomático entre o Brasil e seu país. Para Collazo, trata-se de um plano que tem por trás as "grandes potências" mundiais e cujo principal objetivo é justificar uma intervenção internacional na região amazônica. "Mas não vão conseguir tumultuar as excelentes relações entre Brasil e Venezuela", afirmou. Colazzo fez questão de dizer que falava em nome "pessoal" e não do governo. "Ninguém vai criar condições para facilitar intervenção externa na Amazônia. A Amazônia pertence aos países amazônicos. Somos soberanos e ponto final", disse. Colazzo evitou dizer quais são as "grandes potências" que têm interesse em um conflito internacional na região amazônica. O governo de Roraima lamentou que o massacre tenha sido divulgado antes que as autoridades tivessem certeza do local exato em que ocorreu. Com as notícias, divulgadas internacionalmente, Roraima teria perdido US$2,3 milhões do Banco Mundial (BIRD), que prometera o financiamento e depois o cancelou (FSP) (O ESP) (JB) (O Globo).