A maioria dos brasileiros nunca foi assaltada por meninos de rua nem conhece alguém que tenha passado por essa experiência. Para a maior parte da população, eles são "crianças que só roubam para sobreviver". E a solução mais adequada para os menores abandonados é recolhê-los em instituições do governo. Essas constatações foram feitas pelo IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), que entrevistou duas mil pessoas sobre o tema, em todo o país, entre 18 e 22 deste mês. De acordo com a pesquisa, pode-se concluir que, apesar da fúria dos grupos de extermínio, a população não atribui aos meninos de rua a violência desenfreada que assola o país. É possível perceber também que, quando as crianças assaltam ou cometem qualquer tipo de ato violento, suas vítimas preferidas são as pessoas de maior renda. Entre os que passaram por essa experiência, 54% têm renda familiar superior a 10 salários- mínimos. Os pobres (renda de até um salário-mínimo) são os menos atacados-- 16%, contra 83% dessa classe social que nunca foram agredidos por menores. O grau de instrução dos entrevistados reforça essa conclusão: 62% dos que têm nível superior já foram assaltados por crianças ou conhecem alguém que tenha sido. Dos entrevistados de nível primário, 78% não sofreram agressões de meninos de rua. Embora o medo da violência tenha tomado conta de todo o país, os brasileiros são compreensivos com as crianças carentes. A grande maioria-- 60%-- acha que elas só roubam para sobreviver. Só 26% acham que os meninos de rua "não podem ser tratados como crianças, pois são violentos". Oito por cento dos entrevistados não endossam nenhuma das duas afirmações. A atitude compreensiva do brasileiro pode ser verificada em todas as classes sociais. A maioria (de 55% a 63%) de todos os segmentos percebe que a agressividade dos meninos de rua é resultado da fome. Mas 36% dos entrevistados não têm ilusões: acreditam que os assassinos dos meninos da Candelária "nunca chegarão a ser julgados". Vinte e três por cento crêem que eles "serão julgados e punidos levemente". Grande parte da população (35%) culpa o governo federal pelos frequentes assassinatos de crianças abandonadas, "por não diminuir a miséria no país". E a chefia da polícia-- "por controlar mal os policiais"-- vem em segundo lugar na lista de culpados, com 17% das respostas. Apenas 6% da população acreditam que os próprios meninos são responsáveis pelo extermínio, "por roubarem, matarem e serem violentos". Da mesma forma que os brasileiros responsabilizam o governo pelas matanças, cobram dele a solução: para 38% dos entrevistados, a melhor forma de resolver o problema é recolher os menores em instituições oficiais. Mas quando o assunto é a maioridade penal, as opiniões se dividem. Vinte e três por cento acham que uma pessoa deve ser responsabilizada legalmente por seus atos a partir dos 16 anos; 22%, a partir dos 14; 21%, a partir dos 18; 15%, a partir dos 15; e 7%, apartir dos 19. Apenas 2% dos brasileiros defendem que a maioridade penal fique entre 10 e 14 anos (JB).