Mais 14 sobreviventes da chacina dos yanomamis conseguiram chegar a um posto da FUNAI no Estado do Amazonas, depois de percorrer 80 km de selva e atravessar território da Venezuela. São dois jovens e duas meninas, que escaparam do massacre e apresentaram, cicatrizadas, marcas dos ferimentos. Relataram esses sobreviventes-- que se somam a três que se encontram em Homoxi, no Estado de Roraima-- que na fuga transportaram corpos de mortos e os foram queimando pelo caminho, o que explica as 10 fogueiras encontradas esta semana. Eles revelaram que outros 10 sobreviventes, que não estão feridos, se encontram numa maloca a oito horas de caminhada do posto da FUNAI que os abrigou. O médico Cláudio Esteves de Oliveira, da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), informou, em laudo entregue à FUNAI e à Polícia Federal, que quatro índios feridos foram baleados com tiros de espingarda. Os ferimentos estão em fase de cicatrização, o que demonstra que podem ter sido feitos há cerca de 20 dias. Segundo o médico, entre os feridos estão duas meninas yanomamis de seis e sete anos. Uma delas foi atingida por tiros no rosto. A outra no punho. Os outros feridos foram Reia, 18 anos, e Simão, 20 anos. Antes mesmo da apuração da chacina poderá ser substituído o presidente da FUNAI, Cláudio Romero, cujo ato de demissão foi levado ontem ao presidente Itamar Franco, por ter declarado que a FUNAI não se submeterá ao Ministério da Amazônia. Na Câmara dos Deputados, parlamentares do PMDB e do PT classificaram de inconstitucional a instituição do Ministério da Amazônia, porque só o Congresso Nacional pode autorizar a criação de ministérios e a definição de suas atribuições. O secretário-geral das Nações Unidas, Boutros Boutros-Ghali, recebeu ontem uma comitiva de representantes dos yanomamis a quem se confessou consternado com o recente massacre dos índios. Pela primeira vez na história da ONU, um secretário-geral dirigiu suas condolências por escrito a uma nação indígena. Zeze Weiss, diretora da Amanakáa Amazon Network, organização ambientalista pela defesa da floresta e dos índios, entregou a Boutros-Ghali uma carta de protesto semelhante a que enviou ao presidente Itamar Franco, expressando sua indignação pela chacina e pedindo a punição dos culpados. O antropólogo norte-americano Bruce Albert, especialista em costumes dos índios yanomamis, está convencido de que o massacre que teria ocorrido na maloca de Haximi-u, em Roraima, aconteceu na verdade em território venezuelano. Num relatório sigiloso enviado ontem ao procurador-geral da República, Aristides Junqueira, em Brasília (DF), Albert afirma que a chacina aconteceu há cerca de 60 dias. Em vez dos 73 mortos listados pela FUNAI, o antropólogo diz que as vítimas são 18 índios. Segundo ele, os sobreviventes fugiram pelo território venezuelano até o posto indígena de Toototobi, no Amazonas. Foi ali que seus relatos foram ouvidos por Bruce Albert, deslocado da aldeia de Demini, onde mora, para Toototobi quando lá apareceu o primeiro índio ferido (JC) (O ESP) (FSP) (O Globo).