Dois relatórios divulgados ontem em Brasília (DF) acrescentaram novas evidências ao massacre dos índios yanomamis, ocorrido em Roraima, na fronteira com a Venezuela. O primeiro, preparado por peritos da Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (FUNAI), aponta a descoberta de oito pontos de fogueira com vestígios de ossos humanos próximos à maloca de Homoxi, onde, segundo a FUNAI, teriam sido assassinados 73 índios, provavelmente por garimpeiros. O outro, da Procuradoria-Geral da República, confirma o massacre e afirma que 89 índios habitavam a aldeia Homoxi e sofreram três ataques sucessivos de garimpeiros, com base em depoimentos de sobreviventes e indígenas que habitam a região. O Congresso Nacional aprovou ontem a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar a chacina dos índios. A comissão terá 18 titulares e 10 suplentes, divididos igualmente entre deputados e senadores, e prazo de 90 dias para apresentar suas conclusões. A CPI foi proposta pelo deputado Fábio Feldman (PSDB-SP) e pela senadora Marluce Pinto (PTB-RR), mulher do governador de Roraima, Ottomar Pinto, que nega ter havido o massacre denunciado pela FUNAI. O massacre dos índios yanomamis pode ter acontecido em território venezuelano. Pelo menos três indícios apontam para essa possibilidade. Segundo a PF, a maloca de Haximu fica "colada" à fronteira do Brasil com a Venezuela. Os militares trabalham com a informação de que a maloca fica exatamente na linha de fronteira entre os dois países. Em segundo lugar, o índio Antônio, sobrevivente do massacre, disse em seu depoimento que os yanomamis fizeram contatos com garimpeiros acampados nas margens de um afluente do rio Orinoco. Segundo a PF, isso pode significar que eles estavam do lado venezuelano da fronteira. O maior grupo de garimpeiros da região, conforme a PF, fica na Venezuela, no garimpo Taboca. Segundo o diretor da PF em Roraima, delegado Sidney Lemos, do lado brasileiro há apenas alguns "gatos pingados". Esse contingente de garimpeiros em território brasileiro, de acordo com Lemos, seria insuficiente para matar tantos índios. A PF não diz que os incidentes podem ter ocorrido em território venezuelano, mas o delegado Sidney Lemos afirma que está investigando todas as hipóteses. Numa cuidadosa manobra de bastidores, os diplomatas brasileiros conseguiram ontem abortar uma declaração oficial da Sub-Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra (Suíça), pedindo para que o governo brasileiro prestasse contas sobre o massacre dos yanomamis. Aliviados por terem escapado do pior-- a cobrança pública e oficial-- alguns diplomatas até comemoraram a vitória. Mas o lobby dos brasileiros junto aos peritos da sub-comissão-- que trata de discriminações e proteção de minorias-- não impediu o estrondoso protesto das organizações de defesa dos direitos humanos, num plenário lotado por dezenas de representantes de governos e ativistas do mundo inteiro. Uma delas, a Federação Internacional Terra dos Homens, que representa 600 organizações do mundo todo, acusou os militares e políticos brasileiros de terem sido "fonte de inspiração" para o massacre dos índios, ao praticarem "um genocídio verbal com o propósito de criar um clima anti-índio às vesperas da revisão da Constituição brasileira". A entidade disse que o governo brasileiro é "fortemente responsável pelo massacre, por intervir de maneira indecisa e insuficiente para impedir as agressões" (O ESP) (JB) (FSP) (O Globo).