Os donos de armazéns que deixaram apodrecer milhares de toneladas de alimentos continuam a receber do governo, embora muitos deles tenham dívidas altíssimas com a União. O deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) denunciou à Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) que o governo prefere se desfazer dos estoques guardados em seus próprios armazéns do que vender os que estão nos armazéns privados. Com essa prática, continua pagando aluguel aos donos desses armazéns. Isso é uma sangria", reclama o deputado. No início deste ano, a CONAB convocou os donos de armazéns para que assinassem novos contratos, menos flexíveis. Paralelamente, tentou fazer um acordo para que eles pagassem suas dívidas. Vários se recusaram, mas mesmo assim continuam trabalhando para o governo: pressionados a quitar os débitos, mudaram a razão social de suas empresas. O senador Moisés Abraão (PPR-TO), por exemplo, tem uma dívida de CR$276 milhões com a CONAB, por perdas e desvio de grãos. O governo, contudo, continua lhe pagando pela utilização de 23 de seus armazéns, em Goiás e Tocantins. É o melhor negócio do mundo, uma mina, diz Augusto Carvalho. Empresários e funcionários públicos participam do negócio. A Polícia Federal já indiciou 10 pessoas por isso, entre as quais Paulo César Farias, o PC, e João Mauro Boschero, ex-presidente da Comissão de Financiamento da Produção e da própria CONAB. Nesse período, a maioria dos contratos de armazenamento e de transporte e grãos só eram assinados depois que as empresas pagavam propinas ao "esquema PC". Há também um inquérito sobre o "passeio" de grãos pelo país. Na verdade, mais uma manobra dos espertalhões: os produtos que seriam deslocados de um local para outro jamais deixavam os armazéns onde estavam estocados. Apenas as notas fiscais correspondentes ao transporte "viajavam". A remoção dos alimentos acontecia apenas no papel, e o governo pagava altas somas por essas "viagens de mentirinha". No próximo dia 25, os 30 mil habitantes de Trindade (GO) vão assistir a um espetáculo deprimente. Nesse dia, a CONAB vai incinerar duas mil toneladas de milho que apodreceram porque não foram vendidas a tempo. A população pobre do município verá o fogo destruir o alimento que poderia aliviar sua fome, se alguém tivesse tido a idéia de doar o estoque antes que se deteriorasse. Quatro toneladas de feijão do tipo carioquinha estão perdendo a qualidade para consumo humano no armazém Nutrigrãos, também em Trindade. Há seis meses, o proprietário do armazém, Marcelo Frauzino, avisou à CONAB de que os estoques deveriam ser vendido, mas até hoje nenhuma providência foi tomada. Se demorar mais algumas semanas, o feijão, que poderia alimentar quatro mil crianças num período de 15 dias, terá como destino algum aterro sanitário (JB).