SÃO 73 OS YANOMAMIS ASSASSINADOS

A FUNAI (Fundação Nacional do Índio) divulgou ontem uma lista de 73 índios yanomamis assassinados no massacre da aldeia Haximi-u, em Roraima. A relação foi feita com base em levantamento do intérprete Francisco Bezerra de Mello, que conversou com os sobreviventes da chacina. Segundo a lista, morreram 15 homens, 20 mulheres, 35 crianças e três fetos, retirados a facão da barriga das mães. O presidente da FUNAI, Cláudio Romero, disse que, após sofrerem o primeiro ataque, alguns yanomamis conseguiram fugir para longe da aldeia, mas foram perseguidos e executados. Grupos de yanomamis estão deixando suas malocas e procurando abrigo na aldeia de Xidéia-- base permanente da Polícia Federal--, temendo novos ataques de garimpeiros. O presidente Itamar Franco convocou para amanhã reunião extraordinária do Conselho de Defesa Nacional para decidir que medidas o governo tomará para encontrar e punir os assassinos dos índios. O presidente da FUNAI disse que pedirá ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, intervenção federal no Estado de Roraima. O ministro, no entanto, descarta a intervenção. Ao desembarcar em Brasília (DF), o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, disse que "em hipótese alguma o número está sendo superestimado. Não tenho dúvidas de que houve um genocídio. O que vi lá foi uma cena de guerra". O maior impacto do massacre dos yanomamis deverá ser no Congresso Nacional, onde a União poderá iniciar a luta para retomar o controle direto da área geográfica que abrange hoje os Estados de Roraima e Rondônia. Com apoio das bancadas das Regiões Sul, Sudeste e Nordeste, o governo estuda uma maneira de reverter a situação para que esses dois estados voltem a ser Territórios, ou seja, percam a autonomia de eleger os dois governadores, seis senadores e 16 deputados federais a partir de 1994. O presidente Itamar Franco já estaria convencido de que não é possível ficar fora da luta pelo fim da autonomia dos estados, principalmente no caso de Roraima. O comando das Forças Armadas não confia nos políticos eleitos pela Região Norte do país, o que dificulta qualquer estratégia militar com apoio dos representantes civis para preservar a Reserva Yanomami e fazer a defesa das fronteiras brasileiras. A informação, carimbada como "secreta", foi transmitida, em confiança, aos parlamentares da Comissão de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, na semana passada, pelo general Sílvio Imbuzeiro. O bispo de Roraima, dom Aldo Mogiano, disse que os políticos do estado incentivaram os garimpeiros para invadir a reserva dos yanomamis. Segundo ele, "todos sabem" que esse tipo de incentivo sempre aconteceu. O bispo diz que os políticos utilizam o argumento de que os garimpeiros podem ter livre acesso à área porque são brasileiros dentro do território nacional. Dom Aldo tem se destacado em seu trabalho à frente da diocese de Roraima pela defesa que faz dos índios. A diocese definiu três pontos como prioritários para sua atuação. Uma delas é a questão indígena-- as outras duas são os problemas urbanos de Boa Vista e a formação educacional na região (JB) (O Globo) (FSP) (O ESP).