O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, disse ontem que chega a 73 o número de índios yanomamis mortos por garimpeiros. Além da Haximu, também a aldeia Simão teria sido atingida. Segundo as primeiras informações, esta segunda aldeia teria sido dizimada. O diretor regional da Polícia Federal em Boa Vista (RR), Sidney Lemos, disse que será muito difícil capturar os garimpeiros acusados da suposta chacina contra os índios yanomamis, porque a região é muito acidentada e inviabiliza buscas. Ele pediu à Justiça Federal a decretação de prisão preventiva do garimpeiro João Neto, acusado de ter liderado a chacina. O embaixador da Venezuela no Brasil, Sebastian Alegrett, admitiu a possibilidade de os supostos garimpeiros responsáveis pela chacina terem fugido para o território venezuelano. "Provavelmente foi o que ocorreu", disse. O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, confirmou que "houve um massacre". Ele afirmou que nas duas malocas que visitou há panelas metralhadas e cortadas por facão, mas disse não ter encontrado cadáveres com cabeça decepadas, que a PF localizou em sua primeira visita à área, anteontem. O líder dos yanomamis, Davi Kopenawa, premiado pela ONU por defesa de direitos indígenas, acusou o governo de negligência no caso do massacre. Ele afirmou que os índios estão "muito revoltados" com a indiferença do Ministério da Justiça após alerta dado pelos índios no dia 22 de julho sobre o retorno dos garimpeiros à reserva yanomami e a possibilidade de conflitos. "Os brancos só vêm na área quando tem gente morta", afirmou. O governador de Roraima, Ottomar Pinto, disse que o massacre dos índios yanomamis em seu estado pode não passar de uma versão inventada por interessados em apressar a demarcação de áreas indígenas. "Existem muitas discrepâncias entre as notícias que saem nos jornais e a notícias que se colhem lá. Até agora não se encontraram corpos em profusão", afirmou. O ex-presidente da FUNAI, Sidney Possuelo, afirmou que o presidente Itamar Franco tem de tomar uma postura firme em defesa dos povos indígenas, sob pena de que os inimigos dos índios se sintam fortalecidos e outras situações tão trágicas como a do massacre dos yanomamis aconteçam. Possuelo considerou que a impunidade de violências anteriores contra os índios e o pensamento antiindigenista existente entre políticos e governadores da Amazônia criaram as condições para que o massacre fosse realizado. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) responsabilizou o governo federal, os comandos militares e os políticos-- citando especificamente o ex- presidente José Sarney-- pelo massacre dos yanomamis. O assessor da secretaria executiva da CPT, Ivo Poletto, que esteve no final de junho na reserva, disse que "o governo federal tem uma responsabilidade muito grande pelo episódio, pois cabe a ele constitucionalmente demarcar as terras e garantir o território para os índios". A CPT considera que o governo está pouco empenhado em garantir o território dos índios, agindo com negligência contra os garimpeiros. A entidade acusou também o governador de Roraima, Ottomar Pinto, por sua relutância em condenar o episódio e por adotar uma postura de "cinismo" e de "conivência". A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota protestando contra o massacre. Assinada por dom Antônio Possami, presidente da Regional Norte I, a nota qualifica o massacre de horripilante e faz uma conclamação à sociedade para que se posicione pelo direito à vida dos índios. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil também manifestou Indignação" pelo massacre (FSP) (O ESP) (JB).