A vida dos brasileiros que emigraram para o Paraguaio, principalmente a dos pequenos colonos saídos dos estados do Sul, conhecidos como "brasiguaios", não tem sido fácil. Instalados precariamente em pequenas fazendas ao longo das faixas fronteiriças, especialmente nos departamentos de Alto Paraná e Itapúa, eles nem sempre conseguem regularizar sua situação pessoal nem a propriedade de suas terras. Os "brasiguaios"-- algo entre 300 mil e 450 mil para uma população total de pouco mais de quatro milhões de habitantes-- conseguiram a inimizade dos proprietários de terras da região. Antes da chegada dos colonos, essas faixas eram ocupadas apenas por mato. Hoje, os "brasiguaios" já respondem por 50% da produção de soja do país e pela metade da carne bovina, e o que se vê são terras cultivadas. Ao longo dos anos, eles tiveram dificuldades com suas documentações, tanto das terras quanto pessoais, pois em muitos casos ocupavam locais ainda não registrados. Assim, a maioria detém hoje títulos não documentados, embora não completamente irregulares. A falta de papéis leva a um círculo vicioso que impediu os "brasiguaios" de frequentar as escolas e, consequentemente, de aprender o espanhol ou o guarani, as duas línguas oficiais, gerando acusações de segregacionismo. Para tentar diminuir esses problemas, a embaixada brasileira em Assunção mantém contratado um escritório de advocacia que presta assessoria aos "brasiguaios". Recentemente, o Congresso paraguaio vetou um projeto de lei que pretendia limitar a posse de terra na faixa fronteiriça aos paraguaios nativos, o que prejudicaria evidentemente os brasileiros. Desde a posse do presidente Andrés Rodrígues, em 1989, o governo paraguaio vem prometendo uma reforma agrária para eliminar as graves distorções que existem hoje, mas nada de concreto foi feito. O novo presidente, Juan Carlos Wasmosy, que assumiu no dia 15 de agosto, ainda não fez qualquer pronunciamento sobre o assunto. Fora do primeiro escalão, no entanto, os dois principais partidos políticos, o Colorado e o Partido Liberal, defendem a concessão de documentos aos "brasiguaios"-- que já se constituem numa força emergente capaz de alterar os resultados de uma eleição. Do lado brasileiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem se manifestado a favor do assentamento dos "brasiguaios", enquanto, ironicamente, o Partido dos Trabalhadores do Paraguai dirige as ocupações de terras para as áreas em que há colonos estrangeiros sem documentação completa, incentivando a posse da terra. A reforma agrária, no entanto, mesmo que seja iniciada, terá um longo caminho a percorrer. O lado ocidental do rio Paraguai é extremamente árido e despovoado e iria requerer pesados investimentos em infra-estrutura para que fosse possível sua ocupação. Já o lado oriental está cultivado e uma reforma agrária traria problemas com os fazendeiros que já estão estabelecidos. Nos centros urbanos, a vida dos brasileiros que emigraram para o Paraguai tem sido mais tranquila. Além das possibilidades de colocação no comércio local, estão surgindo negócios abertos por brasileiros que chegam a levar empregados do Brasil para trabalhar no país vizinho. A maioria pretende apenas permanecer dois anos, juntar dinheiro e voltar para o Brasil-- mas há aqueles que são tão bem-sucedidos que acabam ficando (GM).