CRUZ VERMELHA DESVIOU DOAÇÕES CONTRA A FOME

Cerca de US$540 mil dólares em doações para os famintos de Moçambique e da Somália e flagelados da China Ocidental foram desviados pela Cruz Vermelha Brasileira (CVB). Entre 1987 e 1991, o dinheiro doado por pessoas físicas e jurídicas do Brasil para auxiliar as vítimas dessas tragédias serviu para que a presidente da CVB, Mavy DAché Assumpção Harmon, e o diretor-tesoureiro da entidade, Ary Azevedo de Moraes, pagassem salários de seus funcionários, colocassem as dívidas com fornecedores em dia, emprestassem dinheiro a pessoas físicas, enviassem ordens de pagamento para beneficiários-- alguns não identificados-- em diversas capitais do país, aplicassem no mercado financeiro e honrassem contas telefônicas, cartões de crédito, vale-transporte de funcionários, contribuições para a Previdência Social e outras despesas sem especificação. Essas e outras irregularidades constam de uma auditoria que o Tribunal de Contas da União (TCU) realizou entre novembro do ano passado e maio deste ano nas contas da entidade, que atua em todo o mundo no auxílio a populações carentes. Provocada por uma denúncia feita pelo deputado Ricardo Izar (PL-SP) de malversação do dinheiro da Loteria Esportiva doado à CVB pela Caixa Econômica Federal (CEF), a investigação do TCU descobriu que os demandos de Mavy Harmon e Ary Moraes começaram pela utilização indevida de recursos da Loteria Esportiva, passaram pela fraude cambial na aquisição de dólares para viagens ao exterior, atingiram a compra irregular de passagens aéreas e chegaram ao descalabro da apropriação indébita de doações para campanhas mundiais contra a fome. A investigação detalhada do TCU tinha tudo para acabar na punição dos responsáveis pelas irregularidades, mas até o momento é apenas candidata a mais um capítulo da impunidade no Brasil. No final do primeiro semestre deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) se reuniu para julgar um mandado de segurança impetrado por Mavy harmon para reaver seu posto de presidente da CVB, já que tinha sido afastada pelo TCU. O STF não só a reconduziu ao cargo como sinalizou que o TCU não tinha competência legal para realizar auditoria numa entidade de direito privado. Nem a argumentação do TCU de que a investigação se justificava pela aplicação irregular de dinheiro público-- o da Loteria Esportiva-- nessa entidade privada convenceu os ministros do STF (JB).