MASSACRE DE YANOMAMIS PODE CHEGAR A 40

Técnicos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e agentes da Polícia Federal (PF) que chegaram ontem ao local do massacre dos índios yanomamis da aldeia Haximi-u, no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, revelaram que os primeiros números divulgados, dando conta da morte de 10 crianças, sete mulheres e dois homens, não relatam a dimensão real da chacina. "Não sabemos ainda os números exatos, mas foram mortas pelo menos o dobro de pessoas, talvez umas 40", disse o coordenador da FUNAI em Boa Vista, Suami dos Santos. A FUNAI ainda não contou os mortos nem localizou todos os índios sobreviventes, mas já sabe que escaparam muito poucos entre os 55 que viviam na maloca Hamixú, distante 100 km de um grande garimpo clandestino de ouro. A expedição da FUNAI encontrou corpos mutilados, alguns cremados e a maioria apodrecendo. Um dos sobreviventes, o índio Roberto Carlos, relatou que os garimpeiros convidaram quatro índios para comer arroz e açúcar. Durante a refeição, mataram dois deles. Os sobreviventes correram para a maloca. Foram perseguidos. Os garimpeiros atiraram. Depois atacaram mulheres e crianças com golpes de facão e incendiaram as casas. Os sobreviventes deram início às cerimônias de cremação das vítimas. Segundo as tradições dos yanomamis, parte das cinzas deve ser comida pelos irmãos dos mortos, para que sua sabedoria seja transmitida através das gerações. Seus restos são enterrados no lugar de onde tiravam seu sustento. Antes mesmo de se desencadear a previsível torrente de protestos de governos e instituições do exterior, o presidente Itamar Franco determinou o imediato embarque do ministro da Justiça, Maurício Corrêa, e do presidente da FUNAI, Cláudio Romero, para a região, a fim de demonstrar a reação governamental ao massacre. O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, que classificou o episódio de "genocídio, também foi para a região. Os primeiros protestos partiram da organização inglesa Survival, especializada na defesa dae populações indígenas de todo o mundo, que de sua sede, em Londres, despachou comunicados à imprensa internacional denunciando o assassinato de 19 índios-- o primeiro número divulgado. Em extensa mensagem ao presidente Itamar Franco, a Amanakaa Amazon Network, a American Indian Community House e mais 19 entidades norte-americanas de defesa do meio ambiente e dos povos indígenas reclamaram a investigação e a punição dos criminosos, bem como a reafirmação do "compromisso do seu governo para proteger os direitos humanos de todos os brasileiros". A Anistia Internacional enviou um representante para a região para acompanhar as investigações. A Survival e outras organizações não-governamentais vão entregar hoje à Embaixada do Brasil em Londres uma carta dirigida ao governo brasileiro. Um dos trechos diz que "(...) Acontecendo tão cedo depois do massacre da Candelária, esta atrocidade deixa o governo brasileiro à mercê da acusação de não ser capaz de proteger os mais fracos de seus cidadãos". O Environmental Defense Fund enviou 50 cartas a entidades de defesa dos índios e do meio ambiente nos EUA e no exterior pedindo que denunciassem o assassinato coletivo em suas respectivas áreas de atuação e pressionassem os governos para que estes pressionassem o Brasil. O indigenista Orlando Villas Boas, um dos maiores conhecedores da causa indígena no Brasil, disse que a matança era previsível. "Essa área é extremamente cobiçada por sua riqueza e nada foi feito para proteger os yanomamis", afirmou. O problema, completou, vem se agravando desde o governo Sarney. "Houve um incentivo velado do governo de Roraima para a invasão e exploração da região. A chegada de garimpeiros não foi combatida de forma que seria necessária", disse. A FUNAI recebeu, no último dia 11, comunicado dos índios yanomamis informando que sentiam-se ameaçados por um grupo de garimpeiros, que estava extraindo ouro e diamantes ilegalmente na reserva indígena. O deputado federal Sidney de Miguel (PV-RJ) quer que uma comissão externa da Câmara vá até a reserva para acompanhar as investigações. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quer intervenção federal no Estado de Roraima. A FUNAI calcula que existam pelo menos 700 garimpeiros atuando clandestinamente nas terras yanomamis, mas pessoas que já estiveram lá acham que o número é pelo menos duas vezes maior. Segundo as informações, foram 15 os garimpeiros que assassinaram os índios. Os garimpeiros trabalhavam para João Neto, que não teria participado do massacre. João Neto é o proprietário das máquinas de garimpo onde os envolvidos no massacre trabalhavam. Diz-se que a chacina ocorreu como represália ao assassinato de três garimpeiros por índios yanomamis que trabalhavam como guias para a Guarda Nacional da Venezuela. Entre os garimpeiros que assassinaram os índios estaria um irmão de um dos garimpeiros mortos. A morte de garimpeiros por índios, porém, não foi confirmada por qualquer fonte. O presidente da União dos Sindicatos dos Garimpeiros da Amazônia Legal (Usagal), José Altino Machado, disse, após ter a confirmação de que foram realmente garimpeiros os assassinos dos índios yanomamis, que renunciava ao cargo. Ele responsabilizou o governo federal pelas mortes. "A omissão do governo federal está ensandecendo o Brasil inteiro", disse. Vou sair porque fracassei ao buscar o diálogo entre partes conflitantes.
75352 Não consegui dialogar com o governo, nunca houve ressonância. O governo
75352 não teve competência para resolver os problemas entre garimpeiros e
75352 índios e entre garimpeiros e grandes mineradoras. O governo de Roraima atribui os conflitos com índios ao interesse externo pelos "valiosos jazimentos minerais" do Estado e à atividade do clero dito progressista. A opinião consta de documento entregue em junho último pelo governador Ottomar de Souza Pinto ao ministro da Justiça. Roraima quer o fim urgente da paranóia indígena, diz o texto (JC) (GM) (O ESP) (FSP) (O Globo) (JB).