A CHACINA DE 19 YANOMAMIS

Dezenove índios yanomamis-- 10 crianças, sete mulheres e dois homens-- foram assassinados a tiros e facadas na aldeia Hoximu, entre os postos da FUNAI de Homóxi e Xidéia, na fronteira de Roraima com a Venezuela. A informação foi passada através de rádio, por sobreviventes, ao administrador da FUNAI em Boa Vista (RR), Suami Santo. As 10 crianças foram degoladas e os adultos mortos a tiros. Ontem mesmo, a Procuradoria Geral da República determinou à Polícia Federal abertura de inquérito para apurar o genocídio-- crime contra a humanidade. O presidente da FUNAI, Cláudio Romero, pediu ajuda às Forças Armadas para evitar uma nova onda de violência na região. O massacre teria sido praticado-- nos dias 14 ou 15 passados-- por garimpeiros que atuam na reserva dos yanomamis e é o segundo em menos de dois meses. No final de junho, quatro yanomamis foram mortos por garimpeiros. O comandante do 7o. Batalhão de Infantaria de Selva, em Roraima, coronel Burnier, acredita que a morte dos 19 índios tenha ocorrido por conta de conflito entre tribos, hopótese defendida pelo líder dos garimpeiros, José Altino. Mas o presidente da FUNAI garante que os yanomamis não usam facões nem armas de fogo e não costumam matar crianças. Em relatório enviado ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, a FUNAI descreve a chacina como um ato de selvageria. Segundo o documento, elaborado a partir do relato de índios sobreviventes, os garimpeiros agiram com crueldade. Cláudio Romero disse que a chacina foi praticada por garimpeiros em represália à chamada Operação Selva Livre, que tenta expulsá-los da reserva yanomami. Ele informou que, no último dia 12, a FUNAI e a PF destruíram equipamentos, motores e inutilizou uma pista de pouso batizada de Raimundo Nenê, próxima ao local do massacre. "Eles (os garimpeiros) ficaram revoltados com a ação, se refugiaram na mata e agora atacaram", disse Romero. Dez anos depois de iniciadas as discussões, o governo federal anunciou, no dia 15 de novembro de 1991, a demarcação da reserva indígena yanomami, de 9.419.105 hectares, divididos entre os Estados do Amazonas e de Roraima. Na área demarcada, que faz fronteira com o território dos mesmos índios em terras venezuelanas, vivem entre nove mil e 12 mil yanomamis. Eles ocupam uma faixa de terra equivalente a três vezes a superfície da Bélgica. Organizados em comunidades de 50 a 120 índios, os yanomamis dividem com suas roças e territórios de caça uma área de 60 km de diâmetro. Nos últimos 10 anos, a exaustão do solo não permitiu mais um bom rendimento da agricultura. Além disso, devido à presença dos garimpos ilegais, a caça migrou para terrenos distantes, o que provocou mudanças na localização de algumas das aldeias. Os índios estavam voltando a fazer festas, roças e a caçar nos locais tradicionais. As terras yanomamis, cortadas pela rodovia Perimetral Norte, são ricas em ouro, diamante, bauxita, zinco, cobre, chumbo e urânio. Não foi à toa que, após operações da PF para retirar milhares de garimpeiros, 600 deles (segundo a FUNAI) ainda insistem em parmanecer na reserva. A violência contra os índios, nos últimos anos, tem levado várias entidades internacionais a enviarem pesquisadores ao Brasil, com o objetivo de levantar os números que o próprio governo desconhece. A Anistia Internacional descobriu, por exemplo, que, em 1991, foram assassinados 27 índios no país, quase o dobro das 14 mortes ocorridas em 1990. Um levantamento de 1992, segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), aponta a morte de 24 índios, mas acrescenta que 20 sofreram ameaças de morte e mais 24 se suicidaram (em 92, foram 22 suicídios). Além da violência, os índios brasileiros sofreram de um mal ainda pior no ano passado: segundo o CIMI, 87 deles morreram de malária, 64 de sarampo e 14 de cólera. No mesmo relatório, o CIMI aponta as invasões de terra por madeireiros e garimpeiros como o problema mais grave. Existem hoje, de acordo com o documento, 37 áreas indígenas invadidas por madeireiros, do Pará ao Mato Grosso. Ano passado, aumentou também o assassinato entre os próprios índios: foram 12 (JB) (FSP) (O Globo).