Lavradores do agreste pernambucano, inicialmente com suspeita de lepra, descobriram agora serem portadores de uma doença que não é contagiosa mas cuja causa não poderia ser pior: a fome. Depois de provocar o aumento dos índices de pobreza, a seca começa a revelar outra face dramática: a pelagra, uma doença de rara frequência, que atinge apenas pessoas com alto grau de desnutrição e pode ser fatal. No Município de Bezerros, a 130 km de Recife, 150 lavradores têm a doença. Nos últimos meses, a estiagem lhes tem imposto somente uma (ou nenhuma) refeição diária. O município fica na região agreste de Pernambuco e tem 60 mil moradores. Mas é entre os 25 mil da área rural que a situação é grave. Eles perderam tudo que plantaram, e as reservas de alimentos que tinham em casa já se esgotaram. Por esse motivo, a alimentação dos trabalhadores rurais tem se limitado a uma massa de fubá (milho seco moído) e água. Esse é também o único alimento de crianças, gestantes e idosos. O paciente mais novo tem apenas dois meses, e o mais velho tem 47 anos. A maior parte dos que têm pelagra não lembra o último dia que comeu farinha e feijão. Antes, esses dois produtos compunham a alimentação básica do nordestino. Diante da completa falta de alimentos para lhes restaurar as vitaminas do corpo, os 150 lavradores com pelagra têm sido orientados pela prefeitura a comerem capim angola, uma gramínea normalmente utilizada como ração para o gado. O suco do capim, misturado com açúcar, já chegou até a rede oficial, onde crianças dos cinco sítios atingidos pela doença estão momando o líquido. Mas a pobreza impõe outro problema: "Eu até que queria tomar, pois soube que o gosto do suco parece com o de caldo de cana, mas não tenho liquidificador para bater o capim", diz Luzinete Maria da Silva, que é quem apresenta sinais mais avançados da doença no município. A doença pode ser fatal, quando entra na sua terceira fase, caracterizada por demência. A pelagra é uma doença metabólica, provocada pela carência de um ácido presente no complexo de vitaminas B. Mas o seu aparecimento reflete uma carência generalizada de nutrientes protéicos, lipídeos e minerais (O Globo).