BASES MILITARES DOS EUA CERCAM A AMAZÔNIA

Representantes das Forças Armadas disseram ontem que as fronteiras amazônicas do Brasil estão cercadas por um cinturão militar externo formado por bases norte-americanas de alta tecnologia na Bolívia, Guiana, Colômbia e Venezuela, além da Argentina e do Paraguai. Os militares participaram de sessão secreta com integrantes da Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados, quando pela primeira vez passaram ao Congresso Nacional informações classificadas como de segurança nacional. Ao longo de duas horas e meia, os generais Sylvio Lucas da Gama Imbuzeiro e Carlos Uchoa, do Estado-Maior do Exército, relacionaram datas e números de operações de forças norte-americanas na região e revelaram a vulnerabilidade do país. As Forças Armadas brasileiras estão pressionando o governo e o Congresso para obter mais recursos para a defesa da Amazônia e impedir um eventual acordo de cooperação com as Forças Armadas norte-americanas. Os generais disseram aos deputados que é preciso manter uma forte presença brasileira na fronteira amazônica. Segundo eles, um radar instalado na Colômbia, próximo à fronteira com o Brasil, atinge toda a extensão da Amazônia. O Brasil não tem equipamento igual, disseram os dois militares. Para eles, de alguma forma, os EUA já vigiam a Amazônia. No Paraguai, os EUA estariam construindo um aeroporto com capacidade para pouso de aviões- caça. Segundo parlamentares que ouviram o relato, os dois generais esclareceram que o governo brasileiro não tebe uma invasão, mas a montagem das bases impõe uma ação de autodefesa nas fronteiras da Amazônia, porque "os EUA têm os seus interesses e nós os nossos". O embaixador da Colômbia no Brasil, Guillermo Gonzalez, pediu ao ministro interino das Relações Exteriores, Celso Amorim, que desminta a existência de base militar dos EUA em território colombiano. Segundo ele, "não tem o menor fundamento essa informação". O deputado venezuelano Donald Ramirez, ex-presidente da Comissão de Defesa da Câmara de seu país, disse ontem que a presença militar dos EUA na Amazônia é perigosa e não convém aos interesses da América Latina, seja em exercícios na selva ou na instalação de uma base na Guiana. Para Ramirez, a experiência do passado recente indica que a presença militar estrangeira tem provocado ingerência abusiva nos países do continente. Outro deputado venezuelano, Walter Marquez, afirmou que seu país tem interesse em participar do sistema de vigilância da Amazônia que o Brasil planeja instalar. Segundo Marquez, aos radares brasileiros se somariam informações das Forças Armadas venezuelanas. O programa Calha Norte está em colapso. É melhor dizer que não existe
75238 programa, afirmou o ministro-chefe da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), almirante Mário César Flores, na sessão pública da Comissão de Defesa. O programa Calha Norte foi criado pelo governo sob a justificativa de que era preciso garantir a presença brasileira na fronteira amazônica. "Não há milagre com US$5 milhões", disse Flores, referindo-se aos recursos previstos para o programa neste ano. De acordo com Flores, no ano em que foi criado, o Calha Norte recebeu US$12,9 milhões. E chegou a receber, em 1989, US$24,9 milhões (FSP) (O ESP) (O Globo) (JB).