O trigo que mensalmente se deteriora em armazéns equivale à mesma quantia consumida diariamente em todo o país em macarrão, pão e biscoito. Os dados, do setor moageiro, apontam para 15 mil toneladas de trigo que estragam mensalmente, deterioradas pelo tempo, ao custo de US$200 milhões. Para tentar reverter o quadro de desperdício de alimento em um país que tem 32 milhões de famintos, o Ministério da Agricultura e Reforma Agrária inicia, em agosto, um programa de divulgação de cartilhas e seminários junto às zonas de produção. Também algumas empresas já estão trabalhando contra o desperdício. A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), por exemplo, fez um trabalho de conscientização junto aos empregados e conseguiu evitar sobra diária de 208 kg de comida-- somente de carte iam para o lixo, diariamente, 20 kg. A sobra de comida era suficiente para alimentar mais 260 pessoas por dia e ao final do ano representava um desperdício de US$200 mil. Batizado de "Resto Zero", o programa foi implantado no restaurante da Vale em Itabira (MG) e previa a distribuição de cartões verdes aos que não deixavam sobras no prato, com direito a concorrer a uma TV a cores. Estimulados, os empregados começaram a combater o desperdício. Uma das consequências imediatas foi a redução no custo individual de cada refeição, que passou de US$3,53 para US$2,08. Também entidades filantrópicas, como a dirigida por Irmã Zoé, no Rio de Janeiro (capital), e a Fundação Mello Mattos, que atende a menores carentes, estão participando da luta contra o desperdício. Estas entidades começam a combater na própria cozinha, aproveitando cada folha ou caule de verduras e legumes e ensinando às crianças a não disperdiçar. Ao final de cada feira livre sobra, em média, 15 toneladas de alimento, composto basicamente de folhas, importante fonte de vitaminas e proteínas. Ao final de um ano, contabilizando-se as sobras das 227 feiras semanais existentes no Rio, ficam pelo chão cerca de 14 mil toneladas de comida. Considerando-se que cada 40g de folha dão para fazer sopa para uma pessoa, as 14 mil toneladas de sobras anuais dariam para alimentar, por ano, quase o dobro da população brasileira. Os dados são da Coordenação de Feiras Livres da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, que está realizando um trabalho de reaproveitamento deste "lixo". O trabalho é feito a partir da orientação junto aos feirantes, que separam em caixotes as sobras (JB).