A MISÉRIA NO SUDOESTE PAULISTA

A miséria e a fome estão castigando o sudoeste do Estado de São Paulo. Produtora de feijão e tomate, a região, que já tinha o apelido de "ramal da fome", é candidata a ganhar outro, não menos dramático: "Somália brasileira". Seus indicadores de pobreza lembram, de fato, os de países africanos. Em alguns locais, o índice de mortalidade infantil chega a 97 por mil. É uma taxa maior que a dos estados nordestinos, de 75 por mil, e muito longe da média paulista: 26 por mil. O drama é mais grave na zona rural, onde 76% da população de 165 mil habitantes vive em situação de miséria. Na área rural de Itararé, município da região, metade da população mora em casebres feitos de costanera de eucalipto-- a casca e o contorno da madeira, rejeitados pelas serrarias-- e cobertos com papelito, o papel aluminizado que embala o leite longa vida. De cada mil crianças nascidas no ano passado em Ribeirão Branco, no sudoeste do estado, 97 morreram antes de atingir um ano de idade. Em Itararé ocorrem 85 mortes para cada mil nascimentos. O secretário de Saúde do município, Benedito Campos, nota que a fome e a desnutrição afetam as crianças ainda na gravidez. "Os bebês nascem com baixo peso", afirma. Pelas suas observações, muitas crianças doentes chegam ao hospital tão desnutridas que nem podem ser medicadas adequadamente. "Para algumas, um antibiótico pode ser fatal", diz. Uma das causas prováveis do êxodo rural e da miséria na periferia das cidades do sudoeste paulista é a concentração de terras. Nas últimas décadas, os sítios de lavradores da região acabaram sendo adquiridos por grandes empresas rurais, como as dos grupos Votorantim, Camargo Correa, Eucatex e Cimento Maringá, que fazem exploração mineral, criam gado e trabalham com reflorestamento. De acordo com dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), nos últimos 22 anos, 647 mil trabalhadores deixaram o campo, no Estado de São Paulo. Cerca de metade desse contingente foi buscar emprego em atividades urbanas. O resto ficou na periferia das cidades do interior, mantendo com empregos temporários nas propriedades rurais (O ESP).