O desperdício de alimentos no Brasil é mais sentido na agricultura. Com a soja, o desperdício ultrapassa os US$300 milhões anuais, equivalente a quase dois milhões de toneladas do alimento. Arroz, feijão, milho, trigo e soja contabilizam perdas superiores a US$1,35 bilhão. Os hortigranjeiros entram com outros US$1,03 bilhão. Para tentar reverter este quadro, várias iniciativas estão sendo tomadas, desde a campanha nacional de conscientização, liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, até outras regionais, como na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio de Janeiro, que está garantindo o almoço de vários menores de rua. Levantamento do Ministério da Agricultura aponta, por exemplo, para perdas mínimas de US$610 milhões no setor de pescado. "Somente para pirataria-- pesca irregular feita por outros países em nosso mar territorial-- perdemos US$250 milhões anuais. E em termos de putrefação desperdiçamos US$360 milhões, que é 30% de nossa produção, ou mais de 600 mil toneladas de peixe, de pura proteína", diz Sérgio Pinho, engenheiro de pesca do Ministério da Agricultura. Transporte e comercialização aumentam o desperdício. Somente na CEASA do Rio de Janeiro, a COMLURB (companhia de limpeza) recolhe diariamente 19,8 toneladas de restos de alimentos. Mas a própria Secretaria de Agricultura aumenta este número: 40 toneladas diárias de perdas. A fome no Brasil não é flagrada apenas entre o contingente de população de rua que cresce nas grandes metrópoles. A fome vem também da terra junto com o desperdício do solo e atinge em cheio exatamente os que lidam com o plantio. Levantamento do Ministério da Agricultura em Campos (RJ), indica que as perdas com queimadas na região são de US$150 milhões anuais. O presidente da Associação Brasileira das Centrais de Abastecimento (ABRACEN), Gernote Gilberto Kirinus, diz que a produção anual de hortifrutigranjeiros no Brasil é de 40 milhões de toneladas. O desperdício de comida, segundo ele, varia de 10 milhões a 15 milhões de toneladas por ano. O verão é a estação em que mais se esbanja alimento-- de 50 mil a 80 quilos por mês. "As centrais de abastecimento podem desempenhar um importante papel nos programas de combate à fome", diz. A ABRACEN reúne 28 CEASAS de 22 estados. Kirinus afirma que uma das melhores e mais fáceis maneiras de se evitar que a comida vá para o lixo nas centrais de abastecimento seria a instalação, em cada CEASA, de uma cozinha industrial. De lá, o que acaba indo para a lixeira seria transformado em comida de verdade e poderia ser distribuído como merenda escolar, por exemplo. Experiências assim estão em andamento em Curitiba (PR). O Estado do Paraná desenvolve também o Projeto Piá, que contratou pessoas para catar comida no lixo e, assim, alimentar crianças de rua. O presidente da ABRACEN alerta os produtores para as vantagens da doação. Ele diz que, pela lei, todo alimento que vai para o lixo tem que estar comprovadamente estragado. "Eles fazem mágica para driblar a fiscalização sanitária", afirma Kirinus. A tal "mágica" poderia ser evitada, segundo ele, mediante o recibo, por exemplo, de uma instituição de caridade (JB).