O professor do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Monteiro, contestou o dado relativo à proporção de crianças brasileiras vítimas de desnutrição que consta do relatório Investindo em Saúde: Indicadores de Desenvolvimento Mundiais", divulgado pelo Banco Mundial (BIRD), no último dia seis. Segundo o relatório, 29% das crianças brasileiras com idade entre 24 e 59 meses sofrem de nanismo nutricional. O percentual correto, segundo Monteiro, é de 15,4%. O dado citado pelo professor refere-se a um levantamento realizado pelo IBGE em 1989 com crianças de zero a cinco ano de idade. "Embora a faixa etária pesquisada seja diferente, a amostragem do IBGE abrangeu todo o país", disse Monteiro. "O BIRD usou uma pesquisa feita com crianças nordestinas, cujo padrão é inferior à média nacional". Na verdade, a estatura média-- fator utilizado em avaliações de estado nutricional-- das crianças brasileiras entre 1975 e 1989 teve uma evolução só comparável à do Japão no pós-guerra. "A altura média das crianças brasileiras de sete ano de idade em 89 era 3,5 centímetros superior às de 75", disse. A partir dos anos 50, no Japão, o ganho em estatura, a cada período de 10 anos, foi de 2,5 cm. Monteiro atribui esse progresso ao crescimento da economia nos anos 70 e aos investimentos sociais realizados a partir de 75 em redes de água e esgoto, centros de saúde e campanhas de vacinação. "O ganho obtido foi tão significativo que nem a chamada década perdida conseguiu revertê-lo", afirmou. Para progredir além dos avanços obtidos nas duas últimas décadas, no entanto, o Brasil necessitaria de políticas continuadas de combate à má- nutrição. Para Monteiro, uma das razões para a falta de compromisso oficial com esses programas é o preconceito da sociedade em relação a políticas "assistencialistas", vistas como foco de clientelismo e de corrupção. "A população mais pobre acaba sofrendo duplamente. Ela detém uma participação ínfima na renda nacional e recebe do Estado uma assistência inferior à que poderia ser oferecida", afirma o professor da USP (O ESP).