RELATÓRIO DO BIRD SOBRE A SAÚDE

O Brasil vive no pior de dois mundos: não se livrou ainda das doenças típicas dos países pobres, começa a ter índices altos daquelas dos países ricos, e não está tratando direito a maioria delas. Esse diagnóstico negativo foi feito pelo Banco Mundial (BIRD), que está divulgando agora seu relatório anual, desta vez tendo a saúde como tema. O Banco diz que muito disso vem da Ineficiência" que caracteriza as políticas de saúde pública no país. As doenças do subdesenvolvimento são principalmente as infecto- contagiosas. Coisas como malária, tuberculose e cólera matam muito mais nos países pobres do que nos ricos. Males crônicos e degenerativos, como o câncer e as enfermidades cardíacas, são mais típicas de países ricos. O Brasil vive uma "transição epidemiológica". Países que enfrentam essa transição são forçados a continuar tratando
74767 as doenças infecciosas mais simples e, simultaneamente, obrigam-se a cuidar
74767 cada vez mais dos males complexos, sofisticados e dispendiosos, afirma Rainer Steckhan, diretor do Departamento de Brasil, Peru e Venezuela do Banco Mundial. O BIRD constata que o volume de gastos em saúde no Brasil não está em desacordo com o de outros países. O percentual do PIB que o país devota à saúde, 4,2% (2,8% do setor público e 1,4% do privado), é equivalente ao que fazem outros países em desenvolvimento. Para Steckhan, "o mau desempenho nesta área, portanto, resulta da ineficiência com que o Brasil aplica seus recursos e distribui seus serviços, e da falta de sistema de saúde". O técnico do BIRD dá um exemplo: "A taxa de mortalidade das crianças com menos de cinco anos é sete vezes maior do que a da Coréia e quase o dobro da do México, os dois países com níveis próximos aos do Brasil". O Brasil é um alvo perfeito para as políticas recomendadas pelo BIRD. "O Brasil é interessante como exemplo tanto de problemas como de soluções", diz Philip Musgrove, um dos elaboradores do relatório. O documento revela que o Brasil gastou, em 1990, US$132 por pessoa em saúde, contra US$2.763 nos EUA, e US$4 na Tanzânia. Morrem por ano 16 milhões de pessoas nos países pobres por doenças contagiosas, mas apenas 575 mil nos países ricos. O brasileiro espera viver 66 anos num país em que se gasta 4,2% do PIB com saúde. Em outros países, a relação é a seguinte: Chile (expectativa de vida de 73 anos para investimento de 4,7% do PIB), China (respectivamente 69 anos e 3,5%), Canadá (77 anos e 6,8%) e EUA (76 anos e 12,7%). O presidente do BIRD, Lewis Preston, afirma, no prefácio do relatório, que "os países em desenvolvimento poderiam, no seu conjunto, reduzir em 25% o ônus das doenças-- o equivalente a evitar mais de nove milhões de óbitos infantis-- reorientando para programas de saúde pública e serviços clínicos essenciais cerca de metade, em média, das despesas governamentais atualmente aplicadas em serviços pouco efetivos em relação ao seu custo". Algumas das receitas do Banco Mundial para a saúde são: -- Expandir o investimento em instrução formal, especialmente de meninas. -- Reduzir os gastos do governo em serviços de atenção terciária (como hospitais especializados), formação de especialistas e serviços de baixa efetividade em relação ao seu custo. -- financiar e assegurar um esquema definido nacionalmente de serviços clínicos essenciais (tratar doenças infantis; planejamento familiar; cuidados pré-natais e no parto; tratamento de tuberculose e doenças venéreas). -- políticas de crescimento Econômico que assegurem aumento da renda aos pobres. -- Dobrar ou triplicar os gastos em programas básicos, como vacinação e prevenção da AIDS (FSP) (GM) (JB).