Com o fim do confronto ideológico Leste-Oeste, o conceito de defesa nacional passou a embutir duas preocupações básicas das Forças Armadas brasileiras: a miséria, com o risco de convulsão social, e o acesso do país aos avanços da ciência e da tecnologia. Esta foi uma das conclusões do encontro de almirantes, generais, brigadeiros, políticos e banqueiros no Quartel General do Exército em Brasília (DF), há uma semana, para analisar os grandes desafios internacionais a partir da queda do Muro de Berlim e suas repercussões na América Latina. O mais aplaudido no encontro foi o diretor de Ensino Preparatório e Assistencial do Estado-Maior do Exército, general Nicodemos Souza, que, na avaliação dos presentes, fez uma pregação apaixonada da reforma agrária, mesmo sem usar a expressão. O general avaliou que, se o maior problema do país é a fome, não há programa de incentivo à indústria que solucione a questão. "Quem mata a fome é a agricultura, e a agricultura se faz com a fixação do homem no campo", disse o general, segundo relato do deputado Maurílio Ferreira Lima (PMDB-PE). O militarismo na América Latina também foi assunto do encontro. O movimento militarista que mais preocupa militares, políticos e empresários latinos não é o peruano-- a "fujimorização"-- mas o venezuelano, conhecido como movimento "bolivariano". Os líderes deste movimento pregam que o futuro da América Latina foi comprometido por um processo de corrupção promovido pelas elites, que devem ser eliminadas. E por elites entende-se não só os intelectuais, políticos, banqueiros ou juízes, mas também militares. "Quase todos os oficiais presentes manifestaram profunda preocupação com a possibilidade de este movimento, que já tem ramificações na Bolívia, tomar o poder na Venezuela e ameaçar a América Latina", conta Ferreira Lima (JB).