As Deams (Delegacias Especiais de Atendimento a Mulher no Estado do Rio de Janeiro) se transformaram em uma espécie de tribunal de pequenas causas. A conclusão é de estudo realizado pela organização não-governamental ISER (Instituto de Estudos da Religião) sobre a violência contra a mulher no país, especialmente no Rio. Os números obtidos a partir da análise dos registros das cinco Deams mostra que apenas 11% das 10.087 notificações de 1992 resultaram em inquérito judicial. O baixo percentual mostra que os policiais das Deams tendem a nogociar um resultado privado entre vítima e agressor-- separação ou reconciliação--, de modo a evitar o inquérito judicial. A antropóloga Jacqueline Lemos, uma das autoras da pesquisa, disse que alguns resultados são inéditos. "A violência contra a mulher é invisível. Ela acontece no mundo dos conhecidos, sejam parentes ou amigos. Só 10% das agressões são praticadas em espaços públicos e por estranhos", afirmou. De acordo com o estudo, há uma associação entre agressões e consumo de álcool e drogas. "Principalmente quando vítima e agressor são companheiros", disse. A lesão corporal é o delito mais comum contra a mulher. Depois vêm as ameaças. A pesquisa mostra que em 1992 três em cada 100 mil mulheres foram assassinadas no Rio, proporção inferior à registrada na maior parte dos estados brasileiros. Em comparação com São Paulo e Minas Gerais, no Rio acontecem menos registros de crimes contra a mulher. Em 1992, São Paulo teve 492 mulheres agredidas em cada 100 mil. Em Minas, esse índice foi de 278 e, no Rio, de 196 (FSP).