Só nos piores anos da ditadura militar o Brasil foi descrito e apresentado no exterior com palavras mais severas e negativas do que as usadas no artigo publicado ontem pelo jornal italiano "L`Unitá", com a assinatura do cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Com o título de "No Brasil sobrevive a escravidão", do primeiro ao último parágrafo o artigo divulga uma dura e desiludida análise da realidade brasileira, que fatos e estatísticas mencionados por seu autor tornam ainda mais chocante. A primeira afirmação de dom Paulo é a de que "o Brasil é talvez um dos países mais injustos do mundo". "Não por acaso se diz que os brasileiros têm, bem ou mal, uma idéia de liberdade, mas não de igualdade. O país tem o primado dos acidentes de trabalho, dos acidentes em estradas e de desigualdade de renda: 53% do PNB estão nas mãos dos 10% mais ricos da população. A mentalidade dominante, que tende a afirmar a identidade pessoal através da posse e da submissão, é uma herança da infame instituição da escravidão. O Brasil, último dos Estados a aboli-la no fim do século 19, por muito tempo continuou a considerar o trabalho uma vergonha para as elites e uma coisa para negros. A libertação dos escravos, há pouco mais de 100 anos, foi sucedido pela sua marginalização. Privados de qualquer possibilidade de inserção social, esses homens não tinham qualquer possibilidade de recomeçar a viver livres", diz o texto. "Por isso, a brasileira é uma falsa democracia do ponto de vista racial, e as estatísticas da distribuição dos cargos, das vantagens de que gozam os setores sociais mais favorecidos ou da escolaridade falam claro. Nem mesmo o clero, infelizmente, está livre dos preconceitos sociais", prossegue a análise. Entre as muitas afirmações chocantes do artigo está a de que "a nossa cultura está impregnada de violência"; de que temos "uma elite cínica e violenta manobrando os bens do Estado como se fossem sua propriedade, e locupletando-se da coisa pública ao mesmo tempo que se declara cristã e fecha os olhos diante da injustiça social"; de que continuamos a viver num triste país, onde aqueles que lutam pela liberdade são acusados de
74642 comunistas e onde sobrevive uma escravidão como instituição; e onde multidões de crianças morrem de fome (a cada ano morrem 250 mil a 300 mil
74642 meninos por causas ligadas à desnutrição) (JB).