VIOLÊNCIA INCONTROLÁVEL

A violência é atualmente um fenômeno endêmico que se espalha por todo o Brasil e se apresenta de formas variadas, expressas tanto nos homicídios e roubos de automóveis-- os crimes mais frequentes nos Estados do Rio de Janeiro e em São Paulo-- como no trabalho escravo disseminado no interior. Em Mato Grosso do Sul há pelo menos quatro áreas de trabalho servil, a que estão submetidas 8,2 mil pessoas nos Municípios de Rio Brilhante, Ribas, Rio Pardo e Águas Claras. Nos grandes centros urbanos, a violência chegou a um ponto de gravidade tal, que dissolveu as fronteiras entre os que a praticam por estarem no campo da marginalidade e da criminalidade e os que se situam-- ou deveriam situar-se-- no lado da lei. Em São Paulo, com a cumplicidade dos governadores e o aval de seus comandantes, a Polícia Militar matou 4.260 pessoas nos últimos seis anos. No campo, a violência se incorporou ao cotidiano das comunidades mais pobres e à sua luta por acesso à terra. Em 1992 houve 433 conflitos no meio rural do país, nos quais morreram 51 pessoas e centenas ficaram feridas ou mutiladas. No Pará, conflitos dessa natureza-- 49, pelo menos-- envolvem mais de 20 mil pessoas. Entidades de defesa dos direitos humanos e o próprio Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) acusam juízes e promotores de "segurar" processos em favor de grandes proprietários rurais e latifundiários e de encobrirem ações violentas da polícia contra posseiros e sem-terra. O "leilão" de uma menina acreana virgem de, no máximo, 14 anos tem lances de até Cr$20 milhões nos garimpos de Rondônia. Essas garotas, virgens ou não, vêm sendo aliciadas por grupos envolvidos também com o tráfico de drogas, que as levam até o garimpo de Araras (RO). De lá, as adolescentes são distribuídas para outros garimpos. Somente em Araras existem 150 prostitutas, conforme documentos em poder de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Assembléia Legislativa do Acre. As propostas para solução da violência variam. O presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, desembargador Antônio Carlos Amorim, defende a instituição da pena de morte, ainda que provisoriamente. O governador do Rio, Leonel Brizola (PDT), entende que só com educação será possível reverter esse quadro (JC).