Por módicos US$2,5 bilhões, o preço de um refrigerante para cada habitante da Terra (o equivalente a Cr$20 mil), o número de pessoas infectadas por AIDS no planeta poderia ser diminuído pela metade. Cerca de nove milhões de pessoas seriam salvas da doença todo ano, principalmente nos países mais pobres, segundo os dados apresentados ontem pelo diretor do programa de AIDS da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Merson, na abertura da 9a. Conferência Mundial de AIDS, em Berlim (Alemanha). No maior evento do gênero, o diretor da OMS pediu urgente ajuda por parte dos países ricos, que deveriam encarar o dispêndio de US$2,5 bilhões por ano como Investimento". Na virada do século, advertiu Merson, mais de US$90 bilhões em ajuda direta e custos indiretos com AIDS poderiam ser evitados. O que funciona, segundo Merson, é a distribuição de preservativos e campanhas de esclarecimento. A AIDS propaga-se com impressionante velocidade (os casos aumentam em cerca de 25% ao ano), sobretudo na população de 15 a 24 anos de idade nos países pobres-- 800 milhões de pessoas compõem a faixa de perigo. Desde que a doença passou a ser acompanhada, a OMS registrou seis milhões de jovens infectados pela AIDS no mundo. Atualmente, a maioria dos casos está concentrada na África, Europa e EUA, mas em cinco anos o maior número de vítimas virá da América Latina e Ásia. Os países ricos gastam atualmente cerca de US$2,5 bilhões por ano em pesquisas para controle e eventual cura da AIDS. Gastos na mesma proporção seriam necessários para combater a doença no Terceiro Mundo, além de uma grande coordenação de esforços. Pesquisadores do Instituto de Frankfurt, centro de referência da OMS para caracterização viral, anunciaram, durante a conferência, a descoberta de uma variante brasileira do HIV, o vírus da AIDS. Essa descoberta, que corrobora pesquisa realizada pelo Hospital Universitário Gafrée e Guinle, do Rio de Janeiro (RJ), praticamente inviabiliza a adoção imediata de vacinas contra a AIDS no Brasil, pois as que estão sendo desenvolvidas em todo o mundo têm como referência vírus específicos de determinadas regiões. "Nas condições atuais, aceitar testes com vacina contra a AIDS no Brasil seria irresponsabilidade, pois eles não trariam benefícios para nosso doente. Antes de mais nada, precisaríamos desenvolver uma vacina específica, para combater a variante brasileira do vírus HIV", disse Carlos Alberto Moraes de Sá, diretor do Centro de Referência Nacional em AIDS do Gafrée e Guinle (O ESP) (JB).