BUROCRACIA EMPERRA O ESFORÇO NACIONAL CONTRA FOME E MISÉRIA

A Campanha Nacional de Combate à Fome e à Miséria mobiliza pessoas de todas as partes do país, mas está sendo prejudicada pela burocracia e falta de organização. Projetos e idéias não saem do papel e a população faminta de 32 milhões de pessoas continua abondonada. Ações do governo paralelas à campanha, destinadas a amenizar o problema, estão emperradas e do outro lado, o das iniciativas populares, ninguém sabe como ir em frente. O Comitê-Rio, órgão centralizador no estado, já realizou cerca de 90 reuniões, desde sua fundação, no dia 28 de abril, mas mesmo assim nenhum projeto foi concretizado. "As dificuldades existem e eu estou atento a elas. O último nível, mais essencial, que é o da concretização das propostas, ainda não alcançamos. Esta é uma campanha complexa e difícil", admite Herbert de Souza, o Betinho, coordenador nacional. Só o IBASE recebe diariamente cerca de 100 telefonemas de pessoas se oferecendo para ajudar. São desde associações de funcionários de grandes empresas até donas de casa, que se sensibilizaram com a campanha e não fazem idéia de como participar. Exemplos da burocracia não faltam. Do feijão doado pelo governo federal à prefeitura do Rio, apenas 350 toneladas foram distribuídas desde o dia 25 de março. Outras 1.750 toneladas continuam à espera de melhor estrutura para distribuição. A COMLURB colocou apenas cinco caminhões para a entrega e a ajuda do Exército, Aeronáutica e até da PM ficaram apenas na promessa. Também emperraram propostas da campanha como a de alimentar diariamente 100 mendigos do Centro da cidade, prevista para começar no último dia 26. Primeiro, pela demora no mapeamento dos pontos, depois, pela dificuldade de contar com a ajuda da cozinha de um quartel da PM. E na reunião de Betinho com os principais empresários do país, na semana passada, na CNI, falou-se muito mas não se assumiu qualquer compromisso. Em Brasília, as coisas também não andam fáceis para a campanha. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), criado pelo presidente Itamar Franco, não tem estrutura legal para agir. O decreto presidencial, forma utilizada para oficializar o Conselho, não dispõe sobre orçamento, cargos, ou efetivo administrativo. "É grande a boa vontade, mas só isto não funciona", alerta dom Mauro Moreli, bispo de Duque de Caxias, outro líder da campanha e presidente do Consea. "Desde a inauguração do Consea, no dia 13 de maio, muita coisa já foi feita. Mas para agilizar a campanha e resolver de forma definitiva e mais completa os problemas, precisaremos que o Conselho seja aprovado no Congresso através de um projeto de lei", disse. Segundo o bispo, o projeto já está sendo elaborado e será encaminhado ao Congresso pelo próprio presidente Itamar. "Sem isso, não temos orçamento para investir em nada. O decreto é muito frágil. Sem o projeto de lei, o conselho não tem vida própria". Assim que for aprovado, o Consea poderá lidar direto com o presidente da República (O Dia).