Um ano, um mês e 20 dias depois de o presidente peruano, Alberto Fujimori, ter dado um "autogolpe" pelo qual concentrou todos os poderes em suas mãos, com respaldo do Exército, é a vez da Guatemala enveredar pela trilha da "fujimorização": o presidente Jorge Serrano Elías, 49 anos, anunciou ontem a dissolução do Congresso, a suspensão "parcial e temporária da Constituição, a destituição dos ministros da Corte Suprema e dos procuradores da República e dos Direitos Humanos. Receita muito similar foi aplicada por Fujimori no Peru, no dia cinco de abril de 1992. A semelhança se acentua pelo fato de que Serrano anunciou, como Fujimori, a convocação de eleições para uma Assembléia Constituinte, a se realizar nos próximos 60 dias. O "autogolpe" guatemalteco interrompe um período de oito anos de relativa liberdade, ainda que sob tutela militar, após décadas de ditaduras militares. Serrano disse que "a democracia é liberdade, mas não libertinagem", e que é "chantageado" pelo Congresso. O partido de Serrano, Movimento de Ação Solidária (MAS-direita) é minoritário no Congresso: tem 18 deputados, contra 30 da União do Centro Nacional (UCN) e 27 da Democracia Cristã Guatemalteca (DCG), as principais forças de oposição. A DCG foi aliada de Serrano, a princípio, mas recentemente bandeou-se para a oposição, em meio a protestos populares contra o ajuste econômico neoliberal. O presidente vinha sendo atacado no Congresso por supostos atos de corrupção e também por ter reconhecido Belize, vizinho secularmente reivindicado pela Guatemala. Inúmeros congressistas também enfrentam acusações de corrupção e o nível de popularidade do Legislativo é quase tão baixo quanto o do presidente. Serrano denunciou o que considera Intransigência" da guerrilha, que luta contra o governo desde 1960. O diálogo entre o governo e a guerrilha, lançado pelo próprio Serrano, frustrou-se no último dia seis. Ontem, a Unidade Revolucionária Nacional Gualtemalteca (URNG) lançou nota denunciando o "autogolpe". A polícia e o Exército cercaram as casas dos líderes do Congresso e do presidente da Corte Suprema de Justiça. A casa do procurador de Direitos Humanos, Ramiro León Carpio, também foi cercada, mas ele conseguiu escapar. Carpio, destituído do cargo por Serrano, declarou à agência EFE, por telefone, que com o golpe "caem por terra" as esperanças dos guatemaltecos na democracia. O deputado militar Jair Bolsonaro (PPR-RJ) defendeu ontem o golpe na Guatemala. Bolsonaro disse que não conhecia a história do país, mas "se havia corrupção desenfreada e se os políticos já se tinham locupletado, então os militares deveriam mesmo intervir na ordem social". O general Gilberto Serra, chefe do Ccomsex (Centro de Comunicação Social do Exército), disse que "os acontecimentos na Guatemala são um problema interno daquele país". O general disse que o Estado-Maior do Exército estava acompanhando os acontecimentos "via Itamaraty". Segundo o Itamaraty, a posição do governo brasileiro sairia em uma nota conjunta do Grupo do Rio, a ser divulgada em Buenos Aires (Argentina). Até as 20h, a nota não tinha sido apresentada nem em Brasília nem na capital argentina (FSP) (JB).