O MAPA DA FOME-2

Cerca de 9,1 milhões de famílias vivem em total indigência nos 4.400 municípios brasileiros. O levantamento consta do Mapa da Fome-2, elaborado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e divulgado ontem na CNI (Confederação Nacional da Indústria), no Rio de Janeiro (RJ), pelo sociólogo e secretário-executivo do IBASE, Herbert de Souza, o Betinho, coordenador do Plano Nacional de Combate à Fome e à Miséria. O documento informa que a maioria das famílias indigentes-- que ganham o necessário apenas para adquirir uma cesta básica no mês-- se concentra no Nordeste, onde somam 4,5 milhões, vindo em seguida a região Sudeste (2,6 milhões). Dentre os estados, a Bahia é o campeão desta triste estatística, concentrando 1,1 milhão de famílias miseráveis. O Mapa da Fome-2 revela uma expansão da miséria nas cidades interioranas de médio porte, como ocorre no Estado de São Paulo, que conta com 835.381 famílias indigentes em seus municípios (204,02 mil na capital). Cidades apontadas como Ilhas de eficiência", como Ribeirão Preto, com renda per capita de US$6 mil, possui 8.106 famílias vivendo na indigência, enquanto Campinas é a líder dentre as cidades do interior paulista, com 14.951 famílias ganhando o estritamente necessário para adquirir uma única cesta básica/mês. Em Minas Gerais, Urberlândia surpreende por ser uma cidade rica, tendo 14.573 famílias vivendo na miséria total. Uberaba, sua vizinha, tem 10.602 famílias paupérrimas. Juiz de Fora, município do presidente da República, conta com 17 mil famílias na indigência. No Rio de Janeiro, Duque de Caxias possui 39 mil famílias indigentes e São Gonçalo 38 mil. Magé possui 14.623 famílias na linha da pobreza. No Paraná, Curitiba, considerada cidade modelo do país, tem 27,5 mil famílias de indigentes. Em Santa Cruz, um dos principais centros de fumicultura do país, no Rio Grande do Sul, possui 7,8 mil famílias indigentes. Este aumento da pobreza nas cidades médias do interior é atribuído por Herbert de Souza "à recessão prolongada". Durante encontro com representantes das 27 federações das indústrias do país, Betinho alertou os empresários para os "alarmantes" números da miséria e os riscos de uma explosão social, caso não sejam mirorados. Temos 32 milhões de brasileiros vivendo em estado de indigência que
74077 necessitam de ajuda muito rápida, disse. A seu ver, a retomada do desenvolvimento é o melhor caminho para superar a crise e elevar o padrão educacional através da formação de mão-de-obra, dos brasileiros. "Espero que o também sociólogo Fernando Henrique Cardoso, novo ministro da Fazenda, considere esta situação em suas decisões no ministério", afirmou. O presidente da CNI, senador Albano Franco, assumiu o compromisso de que a entidade que representa e suas federações contribuirão com recursos e divulgarão entre o empresariado o plano de combante à fome e à miséria. Betinho apresentou sua proposta, que contém o papel de cada setor. Segundo ele, "caberia às indústrias da construção civil fazer doações de parte de seus estoques, espontâneos, mas expressivos, para possibilitar que a população carente erga sua moradia, simples, mas descente". Trata-se do projeto "Um teto para quem precisa", através do qual os empresários doariam material para a construção de 500 mil casas populares em todo o país-- as comunidades ofereceriam mão-de-obra e administrariam os mutirões. Albano Franco disse que os empresários, para poder contribuir mais efetivamente com o programa, necessitam de providências urgentes por parte do governo federal, como a redução da taxa de juros. O ministro do Trabalho, Walter Barelli, também presente ao encontro, assinou convênio com a CNI, pelo qual o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e o Serviço Social da Indústria (SESI) formularão cursos que possam atender à população de baixa renda. Durante a reunião, o ministro defendeu a redução dos encargos sociais na contratação da mão-de-obra. Imposto alto é para vício, para cigarro, bebida, não para emprego", disse. Barelli afirmou que esta era uma de suas "grandes bandeiras", e que deve ser viabilizada "no mais curto prazo". A` semelhança do que está sendo feito pelo SESI do Distrito Federal e pela Federação da Indústria de Brasília (FIBRA), Albano Franco revelou que as demais federações assumiram o compromisso de viabilizaro o projeto Nossa Sopa-- que na capital federal tem sido responsável pelo fornecimento de mais de 30 mil pratos de sopa todos os dias. Ontem teve início projeto idêntico em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que distribuirá cinco mil refeições/dia no município (O ESP) (GM) (JC) (O Dia) (FSP).