CEPAL APONTA AUMENTO DA POBREZA NO BRASIL

A população de pobres no Brasil era de 69,8 milhões em 1990, superior à população total da França ou da Inglaterra. O número integra estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) divulgado ontem. Do total de pobres que viviam no Brasil em 1990, 34,8 milhões foram classificados como indigentes, isto é, viviam abaixo da linha de pobreza, sem dinheiro suficiente para alimentação e vestuário. É como se todos os habitantes de países como Suíça ou Dinamarca, incluindo até recém- nascidos, vivessem na miséria. O estudo verificou que dos 69,8 milhões de brasileiros pobres, 45,8 milhões vivem em áreas urbanas, o que justifica o fenômeno da favelização observada pelo censo de 1991 do IBGE. Os indigentes também estão concentrados nas áreas urbanas: são 20,4 milhões de um total de 34,8 milhões. O crescimento da pobreza no país é o fato mais impressionante. O número de pobres passou de 50,9 milhões, em 1979, para 61,03 milhões, em 1987. Essa população chegou, em 1989, a 64,7 milhões e atingiu 69,8 milhões em 1990, um salto de quase 10% em apenas um ano. Segundo a CEPAL, 60% de todos os assalariados da América Latina viviam na linha de pobreza em 1990. Pelo cálculos do Banco Mundial (BIRD), estão inseridas nessa linha de pobreza pessoas cujos rendimentos anuais variam entre US$300 (Cr$11,7 milhões) e US$700 (Cr$27,4 milhões). São considerados indigentes aqueles que têm rendimento inferior ao da linha de pobreza. Segundo a CEPAL, entre os ocupados, em situação de pobreza na América Latina, 60% são assalariados. A organização afirma que "entre os numerosos programas destinados ao combate à pobreza, o aumento dos investimentos no crescimento econômico e no emprego representa, ainda, o melhor instrumento para superar, a médio e longo prazos, a pobreza". Os dados da CEPAL são reforçados pelos apresentados no relatório sobre o desenvolvimento mundial de 1990 pelo BIRD. Esse relatório indica, por exemplo, que o número de pessoas vivendo na linha de pobreza no Brasil passou de 23,1 milhões em 1981 para 33,2 milhões em 1987, um aumento de 43,72% em seis anos. Já a Índia, registrou uma ligeira retração entre 1977 e 1983, de 324,9 milhões para 315 milhões de pobres pelos cálculos do BIRD. Na Argentina, os pobres passaram de 1,9 milhão em 1980 para 3,7 milhões em 1986, enquanto a pobreza na Venezuela deu um salto de 2,1 milhões para 6,3 milhões. Os números da CEPAL revelam ainda que a América Latina possuia em 1990 uma população de 427 milhões de habitantes, dos quais 196 milhões viviam ao nível da linha de pobraza. Desse total, 93,5 milhões eram indigentes, o que equivale a 22% da população total de todos os países latino- americanos. A incidência de pobreza, que, em 1986 representava um percentual de 43,3% da população, sofreu aumento de cerca de 2,5 pontos percentuais em 1990. O levantamento da CEPAL mostrou que o Chile e o México apresentaram ligeira retração no nível de pessoas vivendo na linha de pobraza, o que, segundo a organização, pode ser creditado à recuperação econômica vivida por esses dois países nos últimos cinco anos. Os dados da CEPAL justificam assim a preocupação do coordenador nacional do Programa de Combate à Fome e à Miséria, sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, que, sem apresentar os números da CEPAL, já havia alertado o presidente Itamar Franco para essa situação. Hoje, Betinho falará sobre o tema a 27 presidentes de Federações da Indústria, na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), no Rio de Janeiro (RJ) (JC) (O ESP).