JOGO DO BICHO FICA SEM OS "CHEFÕES" NO RIO DE JANEIRO

A prisão da cúpula do jogo do bicho do Rio de Janeiro deixou vários vácuos no processo de sucessão da contravenção. Banqueiros de grande poder, como Emil Pinheiro, Raul Capitão e Haroldo Saens Pen~a, todos com mais de 60 anos e de saúde desgastada, foram condenados a seis anos de prisão sem reforçar a retaguarda. Outros, como Miro Garcia e Castor de Andrade, dividem a cela com os filhos-- Maninho e Paulinho de Andrade--, deixando verdadeiras fortunas circulando diariamente nas mãos de outros parentes e empregados. Apesar de banqueiros do segundo escalão afirmarem que o acordo de respeito a territórios será mantido a qualquer preço, o império balança. Nada garante que "vale o que está escrito". Nem que a cobiça gere traições e faça ressurgir uma guerra que matou mais de 100 pessoas nas décadas de 70 e 80. A sucessão no jogo do bicho envolve uma soma em torno de US$2 bilhões que circulam anualmente no país. Mais de 200 mil pessoas vivem direta ou indiretamente da contravenção no Estado do Rio de Janeiro, com o piso de Cr$4 milhões e vários benefícios, como o vale-transporte e INSS. Os banqueiros do Rio-- onde se concentra o maior volume de apostas-- conquistaram e compraram pontos em outras regiões, ampliando sua área de domínio. Com a organização da cúpula foi feito um acordo de respeito mútuo, preservando-se os territórios de cada um. Este acerto só foi possível com a complacência da polícia que, segundo a juíza Denise Forssard, é a principal responsável pela solidez do império dos bicheiros. Ela afirma que o procedimento dos policiais é mais condenável que o dos próprios líderes da contravenção. Por foram dessa guerra, o segundo escalão do bicho ganha terreno, mas preocupado com a repressão, que deverá vir. O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Biscaia, afirmou ontem que acatará a denúncia da juíza e pedirá, através do Ministério Público, abertura de processo e inquérito policial para apurar o envolvimento de policiais civis e militares com o jogo do bicho e em crimes ligados à contravenção. Na sentença e nos ofícios ao Ministério Público, a juíza sugere uma "devassa na polícia do Rio". O governador Leonel Brizola (PDT) anunciou a realização de estudos para a legalização do jogo do bicho no estado. Segundo ele, a medida também tem o objetivo de pressionar o governo federal a legalizar o jogo do bicho em todo o país (O Dia) (JB).