BETINHO COBRA AÇÕES DO GOVERNO E DA SOCIEDADE CONTRA A MISÉRIA

Desde que começou a coordenar o Plano de Combate à Fome e à Miséria lançado pelo governo em abril, o sociólogo e secretário-executivo do IBASE, Herbert de Souza, o Betinho, vem provocando uma pequena revolução por onde passa. E são muitos os lugares por onde tem andado, buscando apoio, cobrando ações concretas do governo, mobilizando empresários, trabalhadores, donas-de-casa, intelectuais. "Falo com Deus e o diabo, se for preciso", garante Betinho, animado com os resultados que vem conseguindo. O mais importante, segundo ele, é que a sociedade começa a compreender que "é preciso o empenho de todos para se conseguir mudar alguma coisa neste país". "Sinto que é uma onda que está mexendo com as pessoas", repete sempre. Cada um ajuda como pode. Há muitas idéias e propostas, mas a maioria das pessoas não sabe como viabilizá-las. Os Comitês de Ação Pela Cidadania fundados por Betinho, que já são dezenas em todo o país, orientam as pessoas que querem ajudar e encaminham as doações a instituições. A dona-de-casa e costureira Augusta Franco, do Méier (zona norte do Rio de Janeiro, capital), por exemplo, vai doar, toda semana, 150 empadinhas ao comitê do Rio. A reação de d. Augusta era o exemplo que Betinho esperava para provar que as ações do Plano de Combate à Fome não precisam ficar restritas às obrigações do governo. Outras propostas já começam a ser implantadas. Como o fornecimento de um composto alimentar à base de sangue de boi-- um remédio contra a desnutrição--, que começará a ser distribuído no segundo semestre a cinco mil crianças em Pernambuco. Uma experiência de distribuição gratuita de sopa iniciada há menos de dois anos pela Federação das Indústrias de Brasília (FIBRA) despertou o interesse do governo. Depois de examinar o sistema, que aproveita a ociosidade da cozinha industrial do SESI do Distrito Federal para produzir o alimento destinado à população carente, a presidente da LBA (Legião Brasileira de Assistência), Leonor Franco, resolveu encampar a idéia. Com o apoio do marido, o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), senador Albano Franco, a presidente da LBA assina, no próximo dia 25, convênio com o SESI para difundir o programa "Nossa Sopa". O governo Itamar Franco anuncia também a implementação do programa "Leite é saúde", para atender gestantes e crianças de até dois anos. A prefeitura de Campinas (SP) reuniu políticos, militares e empresários e fez um "Pacto contra a miséria", para distribuir soba e construir casas. O presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Lindbergh Farias, busca adesões à sua campanha de alfabetização mas, até o momento, o projeto não avançou. Herbert de Souza tem encontros quase diários com grupos de voluntários, representantes de empresas, funcionários do governo ou entidades que abraçaram a campanha. Para dar uma virada nacional a favor de seu plano, Betinho chamou o compositor Chico Buarque de Holanda e convocou, semana passada no centro do Rio, artistas e intelectuais para discutir uma forma de ação e a contribuição da cultura para o movimento. O primeiro resultado foi o anúncio para setembro da realização de diferentes eventos nuam Semana Nacional de Combate à Fome-- comparada por ele à Semana de Arte Moderna de 1922. No próximo dia 18 de junho, na primeira reunião do Conselho de Segurança Alimentar (Consea), em Brasília, Betinho levantará duas questões que considera graves na campanha de combate à fome: quer explicações sobre a necessidade real de o governo abrir uma linha de crédito de US$1 bilhão para os usineiros e pedirá ao Congresso Nacional uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da merenda escolar. O governo federal organizou ações de caráter imediato para a execução do Plano de Combate à Fome, enquanto aguarda a aprovação do Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF). A intenção do presidente Itamar Franco é destinar ao plano parte dos recursos do IPMF. Até lá, algumas das medidas já tomadas são: -- Em maio, foi empossado o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), composto por oito ministros e 21 representantes da sociedade civil. -- Descentralização da merenda escolar, com US$20 bilhões para 93 com Cr$1,5 trilhão já liberados aos estados-- equivalentes a 40 dias de alimentação dos 30 milhões de estudantes. -- Doação de feijão à população carente (60% dos estoques, porém, continuam armazenados no Sul do país). -- O Banco do Brasil ajuda a elaborar O mapa da fome. O objetivo é montar mil comitês em dois meses. No Ceará, os bancários já arrecadaram Cr$700 milhões em vale-refeição. Seis municípios afetados pela seca receberam 54 toneladas de alimentos. -- a Caixa Econômica Federal emprestou técnicos para elaborar estudos de combate à fome. Criação do Fundo Brasil, custeados com recursos públicos, mas que hoje são desviados para o setor privado. -- a TELEBRÁS também vai formar comitês. -- O Governo criou Plano específico para a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que atenderá, em 20 meses, nove milhões de famílias-- 100% das famílias com renda até um mínimo. As ações do plano são: 1) ampliar de 13 mil para 30 mil o número de micro e pequenos varejistas filiados à Rede Somar; 2) convênios com estados e municípios para programas de abastecimento; 3) criação de linha de marcas próprias com produtos de qualidade e preços acessíveis, com contratação da capacidade ociosa da agroindústria e fábricas de alimentos, produtos de limpeza e higiene; 4) venda direta de produtos do estoque do governo a micro e pequenos comerciantes a preços de leilões e licitações; 5) cestão da economia, produtos básicos a preços acessíveis; 6) programa não ao desperdício; 7) programa "novas alternativas de alimentação", que será articulado com o Instituto de Tecnologia de Alimentos para pesquisa de novos alimentos (JB).