Diariamente, pelo menos quatro mulheres morrem no Brasil por complicações do aborto-- 1.460 por ano. Essa é uma estimativa "otimista", baseada em dados do Fundo de População das Nações Unidas. O número real pode ser até três vezes maior. Por se tratar de uma prática ilegal, não é possível apurar com precisão o número de abortos realizados no país. A média da América Latina é mais dramática. A ONU calcula que 50% de todas as mortes maternas são derivadas de abortos, o que significa 15 mil mulheres anualmente-- uma média de 41 mulheres latino-americanas mortas todo dia. A discussão do tema, que será levado para a Conferência Mundial sobre População patrocinada pela ONU, no ano que vem no Cairo (Egito), enfrenta resistências de ordem religiosa e ética, além dos preconceitos. Na ONU, o tema será analisado do ponto de vista da saúde da mulher. Não se trata de discutir o mérito-- defender ou atacar o aborto-- mas procurar uma solução para as mortes maternas decorrentes dele. Uma das opções que deverão ser analisadas na Conferência é recomendar a adoção de amplos programas de controle de natalidade. As ONGs (Organizações Não-Governamentais) feministas deverão defender uma solução mais radical: a legalização do aborto. Para elas, se o aborto for oferecido pela rede pública de saúde, pode ser feito com maior segurança. O número de abortos no Brasil é desconhecido com precisão. Está entre um milhão e quatro milhões por ano, contra 3,8 milhões de nascimentos. Em Cuba, onde a prática é legalizada, há um aborto, em média, para cada nascimento. As discussões realizadas pela ONU indicam o controle de natalidade como o melhor meio de conter o aborto. No Brasil, por exemplo, 20% das criaças que nascem não eram desejadas. Isso significa que 760 mil crianças não nasceriam por ano caso os pais tivessem condições de usar métodos anticoncepcionais. A esterilização feminina é hoje o principal método contraceptivo empregado no Brasil, atingindo um quarto de todas as mulheres casadas em idade fértil. Este uso massivo da esterilização revela a incapacidade do país em fornecer opções para as mulheres. A esterilização é o método mais barato e requer menores cuidados médicos. A senadora Eva Blay (PSDB-SP) vai apresentar ao Senado Federal projeto de legalização do aborto. Pela proposta, o aborto deixa de ser crime e pode ser praticado até o terceiro mês da gravidez. Atualmente, a legalização só permite o aborto em dois casos: estupro ou razões terapêuticas (como no risco de vida para a mãe) (FSP).