MISÉRIA FAZ CRESCER NÚMERO DE CORTIÇOS EM SP

Por trás da fachada discreta de antigos casarões paulistanos se esconde a miséria. Longe dos olhares desatentos de quem passa, os cortiços abrigam a cada dia mais gente e se multiplicam pela cidade. A recessão e a crise no transporte coletivo estão levando para os cortiços quem morava em casas de aluguel e nas favelas da periferia. Atualmente, de cada 10 habitantes da cidade três moram em cortiços. No Centro, onde eles começaram a aparecer no século passado, os cortiços estão aumentando e o fenômeno é chamado de reencortiçamento. Mas esse tipo de moradia, a maioria das vezes pior que a favela, também já começa a chegar a bairros sem essa tradição, como a Vila Mariana e Aclimação. Os cômodos minúsculos, sem ventilação ou iluminação natural, colocam o cortiço em um patamar abaixo da favela. O cubículo apertado serve de quarto, sala e cozinha e é cortado por varais de roupas para secar. As favelas, com população de 1,5 milhão de pessoas, fazem um retrato público da miséria. O drama de três milhões de paulistanos encortiçados fica confinado entre quatro paredes. O movimento rumo às favelas da periferia visto nos anos 50 se repete agora no sentido inverso. Muitas pessoas estão preferindo morar em cortiços para ficar próximos do trabalho. Hoje, já são mais de 90 mil cortiços na cidade. No Centro estão surgindo novos cortiços e os antigos recebem a cada dia mais moradores, fazendo com que ocorra um "empilhamento humano" dentro dos cubículos. Os cortiços são um negócio lucrativo e o dono geralmente é um desconhecido. Os aluguéis são altos, mas a manutenção do imóvel nunca acontece. Muitos cortiços têm representantes que recolhem o aluguel-- de até Cr$1,3 milhão mensal-- em nome do dono e que se dizem incapazes de fazer as reformas necessárias (O ESP).