Usinas de cana-de-açúcar ultrapassadas, conflitos entre bóias-frias e usineiros. Tudo isso faz parte do passado de Campos, no Norte do Estado do Rio de Janeiro. "Não existem pragas, existem bichos com fome. Por isso, deixo crescer o mato pela plantação". Com idéias inusitadas como essa, o engenheiro agrônomo Nasser Youssef Nasr está promovendo uma revolução agrícola em Campos, e levou sua proposta de combate à fome ao presidente Itamar Franco. Os bons resultados alcançados pela "biotecnologia tropical", técnica criada por Nasser, são aplicados nos três principais projetos da Secretaria Municipal de Agricultura. O primeiro é o das 270 "Hortas Comunitárias", das quais 16 já utilizam os métodos do engenheiro. As hortas ficam em antigos terrenos baldios cedidos à prefeitura em troca de isenção do IPTU enquanto houver horta. Uma família fica responsável pela produção e 80% dela são entregues a creches e escolas municipais. O restante vai para a família que recebe também uma cesta básica enquanto a produção for satisfatória. Outro projeto é "O Pequeno Produz", através do qual o município vem conseguindo mudança no abastecimento. Até o ano passado, 90% dos produtos alimentícios consumidos em Campos vinha de Friburgo ou Vitória (ES). Mais de dois mil pequenos produtores rurais participam do projeto e produzem mais de cinco mil toneladas de alimentos. O produtor pode comercializar a produção no mercado, sendo que 5% devem ser encaminhados a creches e escolas municipais. Já o projeto "Feira da Roça", que funciona ha dois anos, envolve 120 pequenos produtores, que vendem sua produção na Praça da República. A feira acontece às terças e sextas-feiras e o preço é 20% mais barato. Nasser aplica a "biotecnologia tropical" em Cachoeiro do Itapemirim (ES) há 11 anos. Mais de 25 mil pessoas do mundo inteiro já foram conhecer suas técnicas. Seus métodos não são nada ortodoxos, a começar pelo mato que cresce no meio da plantação. "Ao contrário do que se pensa, a briga é pela luz do sol e não pelo solo", ensina. Deve-se apenas limpar o terreno nos locais onde serão plantadas as mudas e cortar o mato apenas quando estiver maior que a lavoura. Neste caso, o que for cortado deve ser deixado no solo para servir de adubo. Não são utilizados defensivos agrícolas. As "Hortas Comunitárias" com as técnicas de Nasser produzem duas vezes mais alimentos que a agricultura convencional, por um preço mais de 10 vezes inferior ao da merenda escolar do governo federal. No ano passado, a prefeitura de Campos pagou US$120 mil (Cr$4,8 bilhões) por 80 toneladas de merenda escolar, insuficientes para as 25 mil crianças de escolas, creches e hospitais do município. Para produzir as 500 toneladas previstas para este ano, serão gastos apenas US$60 mil (Cr$2,4 bilhões), com dinheiro obtido através de um convênio com a PETROBRÁS. A prefeitura doa as sementes e mudas e a CEDAE fornece a água mediante acordo com a prefeitura, sem nenhum custo para a família que toma conta da horta. O agrônomo apresentou ao presidente Itamar Franco há cerca de um mês proposta de combate à fome com a implantação de "hortões" nos municípios. De acordo com Nasser, o governo federal terá gastos de US$406 milhões (Cr$16,3 trilhões) com a merenda escolar que poderiam ser reduzidos em 60% nos "hortões). Os recursos viriam de convênios (JB).