A inflação tem um duplo impacto sobre a renda média real do trabalhador ao reduzir o seu bolo e piorar a sua distribuição, empurrando para a pobreza as camadas médias de assalariados. A constatação é de estudo do economista André Urani, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Cada aumento de um ponto percentual na taxa de inflação mensal leva a uma queda de 0,22% na renda média do trabalho enquanto o Índice de Gini sobe 0,03%. Urani alerta para o fato de que outra variável, o desemprego, também altera com o Gini, colaborando para aumentá-lo. O Índice de Gini é usado estatisticamente para medir a concentração de renda e varia de zero a um. Quanto mais próximo de um, maior é a desigualdade de renda da população. No Brasil, o Gini médio alcança 0,66% e é apontado pela ONU como mais elevado do mundo, ou seja, lidera a desigualdade de renda no mundo. Na pesquisa, são os trabalhadores com carteira assinada os maiores perdedores no processo inflacionário. "Nos últimos 10 anos, o salário real dos trabalhadores com carteira assinada diminuiu em média 0,26% a cada alta de um ponto percentual na inflação mensal. No mesmo período, o rendimento dos que trabalham por conta própria encolheu 0,12% com a elevação de um ponto percentual/mês na inflação, mas esta perda é a metade do que perdem os assalariados com carteira", destacou o economista. Os trabalhadores mais vitimados pela corrosão inflacionária são basicamente as classes intermediárias, "uma enorme massa de assalariados", incluindo aí a classe média. Eles estão enquadrados desde os 20% mais pobres até os 20% mais ricos do perfil da distribuição da renda do trabalho no Brasil. Os 10% mais pobres, que participam com apenas 0,5% na renda do trabalho e os 10% mais ricos, que recebem mais de 40% destes rendimentos, nada perdem e, no caso dos mais ricos, até ganham neste processo inflacionário. André Urani defende em seu estudo a adoção de uma política de rendas nos programas de estabilização econômica para reduzir o tempo do ajuste e evitar que "cada vez mais gente fique mais pobre", neutralizando assim os efeitos sociais perversos da inflação sobre a população trabalhadora (GM).