Dos 7,3 milhões de menores que trabalham no Brasil, uma parte considerável esconde uma triste realidade que o homem das grandes cidades desconhecem: os pequenos camponeses das regiões canavieiras, que, a partir de sete anos, já pegam duro na foice e na enxada. Eles também existem no Centro-Sul, onde chegam a 40 mil na atual safra açucareira. Mas é no Nordeste que a situação se agrava: na época da colheita, somam 140 mil em Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Segundo levantamento feito junto às federações dos trabalhadores rurais dos quatro estados, esses menores são 20% do total de cortadores de cana empregados no período de moagem, que tem início em setembro. Vivem em regime de semi- escravidão, não têm infância nem acesso a direitos trabalhistas. Aqueles com idade legal para carteira assinada-- 14 anos-- raramente a possuem: 95% trabalham em regime clandestino. "É um problema difícil de se resolver, porque não são os empregadores, mas sim os próprios pais que obrigam os filhos a cortarem cana para ajudá-los", diz Gerson Carneiro Leão, presidente do Sindicato dos Cultivadores de Cana de Pernambuco. "As empresas não só contratam as crianças como as levam para cortar cana em engenhos distantes, até em outros municípios, o que termina arrancando-as criminalmente da escola", diz o sindicalista Geraldo Fernandes de Lima, de Ipojuca (PE). Pernambuco lidera a exploração de mão-de-obra infantil no corte de cana: 31% dos canavieiros são menores. O analfabetismo entre os menores até 17 anos oscila entre 46,4% (em Pombos) e 64,44% (em Palmares). "Se os pais levam as crianças para o corte de cana é por conta da extrema necessidade de complementar o orçamento familiar, já que precisam cortar o mínimo de 2.400 quilos de cana solta, para ter direito a uma diária de Cr$132 mil", revela Expedito Rufino, assessor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) (O Globo).