O controle da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi adquirido com 84% de dinheiro público e com a manipulação do direito de voto de seus funcionários. Essa é a lógica da mais nebulosa privatização já realizada, convalidada pelo presidente Itamar Franco. A tomada de controle- - pela compra das ações com direito a voto-- é sempre disputada e ajuda a elevar o preço. No caso da CSN, as regras mataram a disputa: ficou-se no preço mínimo. Do capital que tomou o controle da empresa, 84% são dinheiro público: o fundo de pensão, os funcionários e o grupo Vicunha, financiados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), e a estatal DOCENAVE, da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). O mais grave, porém, foi a forma viciada como se formou o Clube de Investimento dos funcionários pelo então presidente da siderúrgica, Roberto Procópio Lima Netto, que contou com a ajuda do presidente da Força Sindical, Luiz Antônio de Medeiros. O clube foi constituído sem que houvesse trabalho prévio de esclarecimento dos funcionários. Cada encarregado de área procurava seus subordinados para que colocassem sua assinatura numa lista de adesão. Todos os trabalhadores que assinaram a lista transferiram automaticamente para o clube o direito de voto sobre suas ações. O clube possui regras draconianas e mandato de três anos para seus diretores. O ex-presidente da CSN, Lima Netto, concedeu em agosto de 1992 um empréstimo de meio salário aos empregados da empresa a título de incentivo à privatização. O coordenador do clube independente de investidores, João Estáquio Cândido, disse que na véspera da eleição sindical, em julho, Lima Netto prometeu perdoar a dívida caso a Força Sindical ganhasse a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda (RJ), como ocorreu. Ontem, os membros da Comissão Diretora do Programa de Desestatização pediram demissão ao presidente Itamar Franco, que, entretanto, decidiu mantê-los nos cargos. O episódio reflete o clima de crise crescente causado pelas divergências entre o vice-presidente da comissão, João Agripino Maia, amigo de Itamar-- e cuja atuação é considerada prejudicial à desestatização-- e os demais integrantes do grupo. O presidente disse que Agripino terá de respeitar as decisões da comissão: "Ou se enquadra ou sai espontaneamente. Eu não demito" (FSP) (O Globo).