CLIENTELISMO É AMEAÇA A PLANO CONTRA FOME

O clientelismo político na Baixada Fluminense ameaça o primeiro teste do programa de combate à fome do governo federal. A advertência é da presidente da Federação das Associações de Moradores da Baixada, Jandira da Penha Rosa, que teme pelo destino dos recursos que serão empregados nas campanhas de distribuição de alimentos. "É preciso dizer claramente quem vai gerir esses recursos", disse. O plano de Itamar Franco para enfrentar a fome da Baixada-- local escolhido para a sua implantação-- será divulgado amanhã. O bispo de Duque de Caxias, dom Mauro Morelli, um dos autores do plano, antecipou que já estão assegurados US$20 milhões para a construção de um sistema de saneamento básico na região. Também serão lançados programas de distribuição de leite e óleo de soja para grávidas e menores desnutridos. "Não podemos viver de esmolas", reage a líder comunitária. Ela não está convencida da necessidade do programa: "Melhor seria se o governo garantisse salários dignos para os trabalhadores da região, para que eles pudessem comprar leite e óleo por conta própria", disse. Segundo Jandira, cerca de 90% da mão-de-obra ativa da Baixada ganha de um a três salários-mínimos. "Se o presidente procurasse melhorar as condições de vida dessa gente, não precisaria se preocupar com programas de combate à fome", afirmou. No lixão de Caxias, um dos guetos mais miseráveis da Baixada, o clima é de otimismo. O padre Lino Cordeiro, pároco da localidade, não acredita na interferência de políticos clientelistas. "O programa não será realizado pelos trâmites oficiais", afirma o padre, que defende a criação de conselhos municipais e regionais para coordenar a execução das campanhas. A experiência do padre, que comanda um pequeno programa de alimentação para 300 crianças da região, deverá ser aproveitada pelo governo. Em Brasília (DF), o secretário-geral da Comissão de Combate à Fome, o sociólogo e secretário-executivo do IBASE, Herbert de Souza, cobrou do ministro da Fazenda, Eliseu Resende, o montante dos recursos a serem utilizados no programa que pretende baratear os custos dos alimentos básicos e da habitação, além de gerar empregos em todo o país. O ministro prometeu divulgar hoje o volume das verbas (O ESP) (O Globo) (JC).