O ministro do Trabalho, Walter Barelli, fez as contas e verificou que pode repassar ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a parcela de US$500 milhões para programas que gerem mais empregos no país, em especial nas áreas da construção naval, da agroindústria e da automobilística. A verba consta do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do qual o BNDES recebe hoje a fatia de 60%. Barelli quer ampliar esta parte e, para isto, só depende agora do aval de empresários e centrais sindicais representados no Conselho Deliberativo do fundo. Seu principal argumento é o de que, engordando o bolo do BNDES para financiamento de programas que abram frentes de empregos, cai o desembolso para pagamento do seguro-desemprego, que também sai do FAT. NAVIOS-- O BNDES estima que com uma injeção de US$150 milhões os estaleiros brasileiros se credenciariam a executar encomendas de armadores estrangeiros, cujas frotas estão em fase de renovação. O banco avalia que o Brasil pode disputar pelo menos 20% dessa demanda, em igualdade de condições com a China, uma vez que o grosso do mercado será dividido por estaleiros japoneses a coreanos. O Brasil está fora dessa disputa, porque os recursos do Fundo de Marinha Mercante (FMM) estão amarrados: 80% são obrigatoriamente destinados ao financiamento de encomendas de armadores nacionais e os 20% restantes são insuficientes. Os recursos adicionais do FAT, ao contrário, não sofrem esse tipo de restrição e o BNDES já planeja, inclusive, alocar parte deles para a equalização das taxas de juros internas e externas de empréstimos de entidades privadas. O banco acredita que o setor de construção naval possa gerar, com o impulso do FAT, 15 mil novos empregos, concentrados nos estaleiros Ishikawajima e Verolme. AUTOMÓVEIS-- No caso da indústria automobilística, os recursos adicionais do FAT, equivalentes a um sexto do orçamento do BNDES, serviriam para reforçar as encomendas de veículos pesados, como caminhões, ônibus e tratores. De acordo com o que já foi negociado em Câmara Setorial, o banco ampliaria seu atual patamar de financiamento-- de 40%-- para 60%. Para o financiamento direto à indústria, pesam, porém, três fatores contrários. O primeiro é a restrição legal de empréstimos do BNDES a empresas estrangeiras. O banco só pode emprestar a elas recursos de instituições internacionais, como os Eximbanks e o Banco Mundial. Esses recursos, por sua vez, só podem utilizados para financiamento de importações. A alternativa, neste caso, seriam os eurobônus, com os quais o banco espera captar até US$500 milhões em dois anos. Outro fator contrário: se o banco conseguir captar dinheiro barato, não será prioridade emprestá-lo a empresas em condições de fazer o mesmo sozinhas, casos da Volkswagen e da Ford. Soma-se a isto o próprio desinteresse das montadoras. Até agora, só a Fiat montou projeto de expansão para a fabricação de seu carro popular. Resta ao banco a possibilidade de financiar a modernização das indústrias de autopeças já em estudo. AGROINDÚSTRIA-- A Câmara Setorial engatinha, o ministro Walter Barelli não detalhou o projeto, mas o setor reúne boas condições para atrair parcela significativa de recursos. Nos últimos três anos, sua participação nos empréstimos concedidos pelo BNDES dobrou de 7% para 15%, sendo que o financiamento de máquinas e equipamentos para produtores individuais, aberto em 1991, cresceu sete vezes em 1992. Os projetos de maior interesse do banco, contudo, são os que articulam pequenos agricultores com gigantes da agroindústria, como Ceval, Fruvale, Citrossuco e Souza Cruz (Relatório Reservado no.1356).