Duzentas mil pessoas são exploradas em regime de trabalho escravo em fazendas do interior do Estado do Rio de Janeiro. Segundo denúncias da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG-RJ), oito em cada 10 trabalhadores rurais empregados na agricultura, na pecuária e na agroindústria açucareira trabalham em regime de mão-de-obra escrava. Recebem menos de um salário-mínimo por mês, nunca tiveram carteira assinada e são obrigados, durante os sete dias da semana, a jornadas diárias superiores a 12 horas de trabalho. Segundo a denúncia, mais de 50% das pessoas que são submetidas a trabalho escravo no estado são negros e nordestinos. A idade média gira em torno de 25 anos e esses trabalhadores vieram migrados de municípios pobres do Nordeste. As duas entidades denunciaram ainda a existência de pessoas responsáveis pela manutenção de rotas de tráfico de mão-de-obra escrava no país e que ganham muito dinheiro arregimentando famílias inteiras do interior com promessas falsas de bons salários, alimentação e moradias. São os chamados "gatos" ou "empreiteiros". Pelos dados da CPT, a cidade de Águas Claras (MS) foi a recordista de casos constatados de trabalho escravo. Ao todo, oito mil trabalhadores entraram na Justiça em 1992. São Leopoldo (RS) ficou em segundo lugar com três mil, enquanto no Estado do Rio de Janeiro só quatro trabalhadores, da Fazenda da Grama, em Cachoeiras de Macacu, confirmaram na Justiça a condição de mão-de-obra escrava. Em Campos, no Norte fluminense, por exemplo, a FETAG-RJ calcula que 100 mil bóias-frias são mantidos todos os anos, na época da colheita da cana-de-açúcar, em regime de semi- escravidão. O suplício desses trabalhadores dura quatro meses e metade dessa mão-de-obra é de mulheres e crianças. Em Penedo, no Município de Resende (RJ), cerca de 200 pessoas estão sendo mantidas nessa situação há mais de um ano pelos donos da Granja Rocha Klotz. São quase 80 famílias que há 15 meses trabalham 10 horas por dia, não recebem salários e sobrevivem com uma cesta básica distribuída mensalmente pelo patrão e que não resiste a 15 dias de consumo. De acordo com os dados, na região Sudeste, o número chegou, no ano passado, a 2.004 pessoas trabalhando em regime escravo. Somente em Minas Gerais foram denunciados dois mil casos. Por regiões, o recordista foi o Centro-Oeste brasileiro, com 8.413 denúncias comprovadas na Justiça. No Sul, os casos somaram 3.500; no Nordeste foram 2.360; e, Norte, 165 (O Globo).