O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou ontem a 52a. edição do "Anuário Estatístico do Brasil". O documento revela dados da realidade sócio-econômica do país e aponta que a renda per capita do brasileiro caiu 5,3% na década de 80. E mais: em 1990, enquanto os 10% mais pobres respondiam por 0,8% da riqueza pessoal, os 10% mais ricos detinham 48,7% das posses. O documento mostra o quadro de empobrecimento, a alta concentração de renda e o panorama de estagnação da economia do país. Dos cerca de 62 milhões de brasileiros que compõem a população economicamente ativa do país, 24% recebiam até um salário-mínimo no início dos anos 90 e, 52,9%, até dois salários. Na outra ponta, apenas 3% dessa população ganhavam mensalmente, no mínimo, 20 salários- mínimos. A deterioração dos rendimentos em atividades urbanas, no comparativo entre 1990 e 1979, chegou a 16,7% para os trabalhadores domésticos, 14% para os empregados particulares e 6,2% para os trabalhadores autônomos. De acordo com o IBGE, a taxa média de crescimento da população caiu de 2,48% em 1980 para 1,93% em 1991. A população total do país é de 146.917.459 habitantes. Os municípios que mais cresceram foram os médios (2,44%) com população entre 100 mil e 500 mil habitantes. O crescimento da população nas grandes cidades correspondeu ao aumento da favelização. Ao longo da década, itensificaram-se ainda os processos de urbanização, de terceirização da economia e de redução da contribuição para a Previdência Social. No período, a população ocupada que contribuía aumentou 3,6%. Já a parcela dos não-contribuintes cresceu 6,6%. O "Anuário" informa que o Brasil é uma nação de maioria branca. Enquanto os brancos chegam a 55% da população, os negros se restringem a 5%, e os mulatos (pardos) representam 39%-- 1% não declararam sua cor. Para Feliciano Pereira, diretor do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra do Rio de Janeiro, os números apresentados pelo IBGE estão distorcidos. "O Brasil é um país de negros. Criticamos a postura dos órgãos oficiais na classificação dos não-brancos. Não existe esse negócio de pardo, moreno claro, moreno escuro", afirmou. O número de analfabetos é maior entre os negros (30,1%) e pardos (29,3%) do que entre os brancos (12,1%). A comparação do rendimento médio mostra que os de cor branca ganham mais do que pardos e de cor negra. Os trabalhadores de cor negra recebem apenas 41% do rendimento médio de um branco, enquanto os pardos ganham 48%. Como chefes de família, responsáveis pelo sustento de uma ou mais pessoas, há 16,3 milhões de pessoas de cor branca, 10 milhões de pardos e 1,3 milhão de negros. Há 39,4 milhões de homens brancos, 28,9 milhões de pardos e 3,5 milhões de negros. As mulheres somam 41,9 milhões de brancas, 28,9 milhões de pardas e 3,6 milhões de negras. Os dados do IBGE revelam ainda que 7,5 milhões de crianças e adolescentes (de 10 a 17 anos), o equivalente a 11,6% das pessoas ocupadas, participavam do mercado de trabalho em 1990. E para cada mil alunos que ingressavam no 1o. grau, apenas 22% se formavam, taxa que caía para 12,3% no Nordeste e elevava-se a 38% no Sudeste, mostrando as desigualdades regionais. Segundo o "Anuário", 53,5% da população de 0 a 17 anos pertenciam a famílias com rendimentos de até meio salário-mínimo per capita. Metade dos adolescentes de 15 a 17 anos trabalhava, enquanto mais de 17,2% da população da faixa de 10 a 14 anos estava no mercado de trabalho. No Nordeste, este percentual elevava-se a 21,7%, caindo para 12,7% no Sudeste. Entre os adolescentes de 10 a 17 anos, 35% só estudavam, 19,5% estudavam e trabalhavam e 31,7% só trabalhavam. Quanto à carga horária, 65,1% destes adolescentes trabalham mais de 40 horas semanais. E 86,2% tinham rendimento de até um salário-mínimo (JB) (FSP).