GOVERNO CONVOCA TODOS PARA O COMBATE À FOME

O governo pode convocar toda a sociedade para um esforço com o objetivo de acabar com a fome, problema que exige uma mobilização coletiva, porque o país vive um "estado de emergência social". Há 47 milhões de pessoas vivendo entre a pobreza e a indigência e 35 milhões de crianças e adolescentes vivendo em famílias com renda per capita de até meio salário-mínimo. "Estou convencido de que o presidente Itamar Franco quer acabar com a fome e vai querer fazer e fará muito mais à medida que a sociedade toda estiver fazendo. O segredo dessa campanha é que não é apenas governamental", diz o sociólogo Herbert de Souza, o "Betinho", convidado pelo presidente a assumir a direção das iniciativas visando à solução do problema-- ou à atenuação de seus aspectos mais agudos. Betinho recusou o comando da campanha, porque é hemofílico, contraiu AIDS numa transfusão de sangue e admite que só viverá mais de um ano se nesse prazo for descoberta a cura da doença, mas se dispõe a participar intensamente da coordenação das ações contra a fome. A campanha só será eficaz, porém-- adverte--, se a erradicação da fome constituir uma prioridade tanto do governo como da sociedade. "Do contrário, tem tudo para dar errado. É preciso urgentemente fazer o que o Brasil não faz há 10 anos. É o preço de uma imensa dívida". Sociólogo, criador e diretor do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), Herbert de Souza considera que "não se acaba com a fome com uma política recessiva". Segundo ele, "política recessiva gera desemprego, pobreza e miséria. O combate à fome deve ser prioridade em todos os níveis da política do governo-- na geração de empregos, na democratização da terra, em uma política salarial adequada. Se o governo Itamar quer acabar com a fome, terá que mudar de rumo", afirmou (JC).